segunda-feira, 16 de março de 2009

Eleição e Livre Arbítrio

Deus criou o ser humano um ser livre e em condições de exercer sua liberdade, pois o fez capaz de conhecer e avaliar sua realidade. Esta é uma das características que evidenciam a imagem e semelhança de Deus no ser humano. É claro que a liberdade humana tem seus limites, enquanto que a liberdade divina é total e absoluta. Mas o ser humano pode e tem condições de escolher como pensar e agir. Isso é livre-arbítrio. Desse livre-arbítrio, decorre a responsabilidade moral do ser humano. É livre, mas também responsável por suas idéias e ações. Por ser livre é, também, responsável por sua conduta. Na intenção de averiguar a Presciência de Deus e o Livre Arbítrio, Sua Soberania e o desejo do homem de escolher, embora pareça um paradoxo, o estudo hermenêutico deste assunto nos levará a resultados surpreendentes e inéditos.
Supostamente Deus criou o homem com liberdade para tomar decisões, com liberdade para rejeitar ou aceitar Seu plano de salvação, para crer ou não crer Nele, para aceitar ou não o seu chamado para o ministério.
Adão e Eva tiveram a liberdade de decidir; influenciados pelo diabo, optaram pela desobediência ao Criador. Antes disso, Lúcifer, um anjo de grande prestígio no céu, também usou de seu livre-arbítrio, desejou ser igual ao Altíssimo e caiu em rebelião. Não obstante, Moisés não teve escolha a respeito do ministério que Deus o convocou, assim como Jeremias, que antes de nascer já estava predestinado. O que dizer do apóstolo Paulo que sem procurar a Cristo, foi convocado por Ele.
Em Deuteronômio 28, Deus coloca diante do seu povo dois caminhos: (a) "Se obedeceres à voz do Senhor teu Deus... todas as bênçãos virão sobre ti..." (b) "Mas se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus... virão sobre ti todas estas maldições...". Noutras palavras, Deus concede ao seu povo a liberdade de escolha, ou a aceitação do homem a convocação de Deus ao ministério que Ele, na sua ação convocatória já definiu.
De fato, Jesus nos deixou exemplos de liberdade. Em Mateus 7, Ele afirma que diante dos pecadores existem dois caminhos: um deles é espaçoso e conduz à perdição; o outro, estreito, conduz à vida eterna. Disse que são poucos os que percorrem o caminho apertado. Ora, se não prevalecesse à vontade humana, todos os homens seguiriam o caminho estreito, porque é da vontade de Deus que todos se salvem. No entanto, Jesus estaria, supostamente, apontando as ocorrências resultatórias da anunciação da chegada do Reino de Deus, onde diante da apresentação dos fatos, o resultado já estaria definido. È possível que algumas considerações soem estranho ao nosso ouvido. No entanto, é preciso dar ouvidos a hermenêutica.
Não é desejo do autor falar sobre a salvação (embora seja um assunto fascinante). O cerne da questão e motivo desta reflexão está na condição do homem após aceitar Jesus como seu Senhor e reconhecê-lo como único Salvador. O crente, usando o seu livre-arbítrio, pode voltar-se para o pecado, perder a fé, perder a graça de Deus e, assim, perder a salvação? Mais uma pergunta cabe formular: o crente possui livre-arbítrio? Se a resposta for afirmativa, é evidente que ele poderá usá-lo, e usá-lo para abandonar a sua fé original e fazer morrer a chama do primeiro amor; se negativa, a condição de servo não seria apenas poética, mas enfática e convocatória.
A partir da decisão do primeiro casal no Éden, alguns afirmarão que as evidências escriturísticas provam que em nenhuma circunstância o ser humano perde o direito à liberdade de escolha dada por Deus. O argumento de que temos o Consolador que nos convence do pecado, e, portanto não podemos cair não me parece suficiente. Vejam: "Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo" (Hb 3.12). Só pode haver desenlace quando há enlace; só podemos sair de onde entramos; "apartar-se do Deus vivo" significa quebrar uma aliança existente.
Mas o que dizer de uma pessoa que se entregou a Cristo e aceitou-o como seu Senhor e Salvador? Poderia ela, que agora é escrava de Cristo, optar em realizar ou não o chamado convocatório de Cristo para o ministério? Considerando que esta pessoa possa escolher, não estaria ela frustrando os planos de Deus? Temos realmente o direito de escolher o ministério que desejamos realizar, ou, temos o direito de rejeitá-lo? A Soberania de Deus se estabelece diante do Seu desejo perfeito para o ser criado, ou o desejo do homem prevalecerá diante do propósito do Criador? O homem é servo ou senhor? A sua vida restaurada em Cristo pertence a ele, ou Aquele que o restaurou? A hermenêutica bíblica do texto de Atos 26:16, nos revela o termo grego “uperetes” (ministro). Enraizados dentro de uma perspectiva hermenêutica e tendo como ancora desta reflexão o texto citado acima, precisaremos buscar um equilíbrio entre Eleição e Livre Arbítrio.

5 comentários:

  1. Pastor,

    Que artigo bom, ein? Nossas escolhas podem nos reservar bênçãos ou maldição. Deus nos ama, nos resgata, nos chama, nos procura, mas não nos obriga... Isto é ser imagem e semelhança dEle... que privilégio!!! quanta responsabilidade!!! Deus tenha misericórdia de nós!

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  2. Olá Fabiana,

    Realmente a responsabilidade é muito grande. Somos eleitos, mais livres... Deus nos ajude.

    Abraços do Pastor,

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  3. Caro Valtencir,

    Aquele que aceita o chamado de Cristo jamais se torna seu escravo, pois que Jesus não escraviza ninguém. Por ter aceito Cristo, este já escolheu e não frustrou os planos de Nosso Senhor. Caso utilize-se de seu livre-arbítrio para escolher um caminho diferente, então é porque não havia interiorizado de fato a Verdade em si.
    O homem tem o direito de escolher a vida que lhe apraz, porém nem tudo o que escolhe livremente lhe convém.
    Um abraço,
    Luiz

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  4. Prezado Luiz,

    Sem dúvida Cristo nos libertou do poder do pecado e do mundo. O Deus encarnado nos trouxe salvação diante de um mundo já condenado. Observando as epístolas do apóstolo Paulo, notaremos com clareza sua apresentação: "Paulo, servo de Cristo". A palavra "servo" no grego (idioma ao qual o novo testamento foi escrito)significa "escravo", não obstante, fomos chamados a uma servidão a um Deus (Jesus), de amor, que tira de nós o fardo pesado e coloca um leve.
    Sem dúvida o homem recebeu o dom (livre arbítrio) de escolher os seus caminhos, mas não de determiná-los. Essa Soberania é do nosso Senhor Jesus.

    Um abraço,

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  5. Caro Pastor,

    Sem dúvida um bom artigo, porém, deixa de dizer, relativiza e abandona o cerne da questão. Afinal, qual a posição do pastor? Como explicar uma posição intermediária hermeneuticamente associada às verdades bíblicas? Não sou hiper-calvinista, nem mesmo calvinista. E não sou arminiano (é possível isso?), mas é difícil negar que o homem, morto pelo pecado original (e isso é incontestável),possa 'escolher' seguir a Deus. O Apóstolo Paulo diz que é impossível ao homem fazê-lo "se não for justificado em Cristo pela fé, e esta pela graça (Ef. 2:1-5). Logo, se nós não podemos alcançar a salvação por nós mesmos, uma vez mortos; se precisamos antes ser vivificados e/ou regenerados, como estabelecer e explicar a vontade humana nesse processo? Resta indagar: porventura a graça se restrinja apenas à qualificação do homem por Deus possibilitando a ele "acreditar" no sacrifício de Jesus na cruz e assim, se salvar? Ou seja, a graça apenas foi dada ao homem para restabelecer a ele o livre arbítrio existente antes do pecado original e assim, poder acreditar ou não? Diante de tais perguntas, como explicar o decreto imutável de Deus quanto aos eleitos "antes da fundação do mundo" (Romanos 9)? Explica-se pela presciência de Deus? Logo, o decreto foi promulgado pelo Soberano "contemplando as ações humanas? São perguntas que teimam em aflorar e que, nem Calvino, nem Arminius; e antes deles, nem Agostinho, nem Pelagio, conseguiram responder com absoluta e incontestável efetividade.

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