terça-feira, 28 de abril de 2009

A Eleição, o Livre Arbítrio e a Perspectiva Hermenêutica

Antes de ler esta reflexão, aconselho a leitura do texto que esta no livro de Atos 26:16, e do seu contexto situacional. O foco desta reflexão considera como “mitte”, o posicionamento do apóstolo Paulo a respeito do seu ministério.

Quando abordamos sobre a perspectiva hermenêutica, tomamos o cuidado de cercar o texto ou a declaração do agora apóstolo Paulo no livro de Atos 26:16, este texto é fundamental para a compreensão do livre arbítrio do ministro. Sem o uso da hermenêutica, a compreensão da interpretação correria riscos. Portanto, queremos compreender a interpretação sem sangrar o sentido do texto. Precisamos ter isso tudo presente para podermos determinar qual o verdadeiro sentido usual e comum das palavras e frases. No estudo do texto referente a esta reflexão, a primeira regra da hermenêutica foi considerada indispensável para o perfeito entendimento do livre arbítrio, na perspectiva da declaração que o próprio Senhor Jesus fez ao apóstolo Paulo. Quem escreveu o livro de Atos foi Lucas, quem revela a declaração de Atos 26:16 foi o apóstolo Paulo, mas, quem falou o texto do versículo referente a nossa reflexão foi o próprio Senhor Jesus Cristo.

No contexto descobrimos que o apóstolo Paulo fez sua apologia diante do governador Festo e do rei Agripa. Destacamos neste segundo módulo que o objetivo de Paulo não era ser solto por estes homens, uma vez que ele já tinha apelado para César. O objetivo do apóstolo foi deixar claro a sua missão e o exato ministério ao qual o próprio Senhor Jesus o convocou.

Na linguagem bíblica, como em outra qualquer, existem palavras que variam muito em seu significado, segundo o sentido da frase ou argumento em que ocorrem. Importa, averiguar e determinar sempre qual é o pensamento especial que o escritor se propôs a expressar, e assim, tomando por guia este pensamento, poder-se-á determinar o sentido positivo da palavra que apresenta dificuldade. O termo uperetes (uperetes) foi analisado focando as regras da hermenêutica, assim como os seus fundamentos.

O governador Festo já havia ouvido a defesa do apóstolo Paulo em outra ocasião, ele já conhecia bem a sua defesa e ficou bastante surpreso com a eloqüência do apóstolo. Após este episódio com a chegada do rei Agripa, Festo que estava balançado pela eloqüência de Paulo, sofrendo pela dúvida, resolve repetir o feito na presença de Agripa, para quem sabe, ter mais firmeza na sua decisão.

Ás vezes sucede que não basta o conjunto de uma frase para determinar qual é o verdadeiro significado de certas palavras ou idéias, por este motivo imergimos no contexto geral. Devemos começar mais acima a leitura e continuá-la até mais abaixo, para levar em conta o que precede e segue a expressão obscura e, procedendo assim, encontrar-se-á clareza no contexto por diferentes circunstâncias. No contexto achamos expressões, versículos ou exemplos que nos esclarecem e definem o significado da palavra obscura.

Ás vezes encontra-se uma palavra obscura aclarada no contexto por sinônimo ou ainda por palavra oposta e contrária á obscura. Ás vezes, uma palavra que expressa uma idéia geral e absoluta, deve ser tomada num sentido restrito, segundo determine alguma circunstância especial do contexto, ou melhor, o conjunto das declarações das Escrituras em assuntos de doutrina.

Muitas vezes, tão somente pelo contexto se pode determinar se uma expressão (Uperetes) deve ser tomada ao pé da letra ou em sentido figurado. Podemos tentar entender certos textos da Bíblia, que nos trazem certa dificuldade de compreensão, porque os textos nem sempre explicam a razão do por que. O apóstolo Paulo, não esta na verdade preocupado em fazer uma linda apologia para comover o coração do rei Agripa ou o do governador Festo, ele almejou deixar claro o seu tipo de ministério e aproveitou bem o momento supostamente contraditório para com o bom uso da sua eloqüência ganhar alguns, se possível os magistrados.

Concluímos esta reflexão de forma redundantemente necessária ao afirmar o objetivo principal do apóstolo Paulo, declarar com exatidão o seu ministério de servo e mais, como os vossos corações estão duros, não me façam perder tempo, como cidadão romano, apelo para César.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Eleição, o Livre Arbítrio e as Implicações Teológicas

Quando discorremos sobre as implicações teológicas, mostramos que Deus nos fez livres de modo tal que somos seres formadores de decisão. No exercício do livre arbítrio sempre faremos uma escolha ou outra em dada situação. Não podemos parar de fazer escolhas quando confrontados com alternativas. Se eu me recuso a fazer uma escolha, eu ainda assim, estarei fazendo uma escolha. 

Mas como são feitas as escolhas no uso do livre arbítrio? Os homens farão escolhas segundo o seu desejo momentâneo. Ao escolher, pensamos ser a melhor opção no momento, isso quer dizer que nossas escolhas revelam nosso caráter, uma vez que é nosso caráter que produz nossos desejos e, portanto, determina o que consideramos a melhor opção. Na análise do caso do profeta Jonas, por exemplo, vimos que ao receber uma ordem direta de Deus Jonas foge para uma terra não apenas distante, mas também contrária na sua geografia. 

Jonas exercita, portanto, o seu Livre Arbítrio para tomar o que na sua concepção, seria a melhor escolha, quer dizer... Fugir. Não obstante, Deus aceita a sua escolha de fugir, mas não a escolha de determinar o resultado da escolha. Deus encontra Jonas e usando métodos que lhe são próprios, exerce Sua soberania de forma que Jonas cumpre a vontade do Criador e não a sua, embora possa escolher. 

A escolha de Jonas é tomada tendo como background a formação do seu caráter. Não foi um problema de fé ou de fidelidade que fez com que Jonas exercesse o seu Livre Arbítrio para fugir, foi na verdade um problema de caráter. Um bom caráter geralmente desejará boas coisas, e um mau caráter desejará coisas más. O que nós escolhemos, portanto, revela a condição da nossa maturidade, somos para isso livres. Jonas usou o seu Livre Arbítrio para não aceitar o chamado convocatório de Deus, mas não teve acesso a ele para permanecer na sua escolha. O final da história do livro de Jonas, na expressão de suas últimas palavras, Jonas deixa bastante claro que ele não exerceu o seu direito de livre arbítrio. 

Deus nos criou como seres responsivos, em resposta à nossa criação deveríamos exercitar o livre arbítrio pra sempre glorificar ao Criador. Isto significa que nós não agimos diante de Deus, mas apenas reagimos. O livre arbítrio é, portanto uma resposta à ação do Criador. O livre arbítrio não é a mola propulsora para o efetuar na vida do homem, ele é apenas uma resposta da determinação Soberana de Deus. O fato de respondermos de forma contrária aquilo que Deus tem como plano, como no caso de Jonas, revela a nossa imaturidade e fraqueza de caráter. Deus nos protege de nós mesmos quando age com Sua Soberania. 

O arbítrio pode ser livre para planejar, mas não para executar aquilo que o arbítrio de forma livre planejou. Provérbios 16 nos fala justamente deste suposto paradoxo. Quando se diz que o arbítrio é livre, obviamente não quer dizer que ele determina o resultado do nosso ministério, mas que o arbítrio rege como será desenvolto e/ou próspero este ministério. Não obstante, o caminho que leva a este resultado será diretamente condicionado pelo uso do livre arbítrio. 

Mesmo tendo direito a exercer o arbítrio que é livre, o homem é incapaz de exercê-lo em muitas áreas de sua vida. Não escolhemos doença, pobreza ou dor. Não escolhemos nossa condição social, nossa cor, ou nossa inteligência. No entanto, em qualquer uma destas condições, o livre arbítrio nos regerá ministerialmente, para o bem ou para o mau. 

Ninguém pode negar que o homem tem arbítrio, e que esta faculdade é livre para escolher o que dizer, fazer, pensar, etc. Acima falamos sobre o caso do profeta Jonas, mas o que dizer sobre Moisés, que insistentemente disse diretamente à Deus que literalmente não queria exercer o ministério. Deus aceitou os argumentos livres de Moisés? Não! O que poderemos argumentar sobre o profeta Jeremias, ele mesmo narra que o próprio Deus o escolheu desde o ventre de sua mãe. Qual foi o direito ao exercício do livre arbítrio para Jeremias? Nenhum! E sobre o apóstolo Paulo? Ah! Sobre Paulo... Dentre tantos personagens bíblicos fantásticos, este vale muito a pena falar. Não era cristão, não gostava de cristãos, perseguia, prendia e se necessário matava os cristãos. Ele amava a Deus, a sua maneira é verdade, mas amava. Quanto a Jesus Cristo, o seu sentimento era de ódio. Saulo usou o seu livre arbítrio para odiar Jesus e perseguir cristãos, essa foi a sua livre escolha. Contudo, a Soberania de Deus escolheu outro destino para Saulo. O próprio Jesus faz a Saulo um “chamado convocatório”. Jesus não convida Saulo a participar do ministério da Palavra, Jesus não faz uma pergunta do tipo: Saulo você gostaria de fazer parte do ministério? E Saulo diria: Não. Jesus então diria diante desta resposta: Ah! Tudo bem então, o importante é que você exerça o seu direito de escolher livremente. Jesus convoca Saulo e não aceita não como resposta. Foi assim com Jonas, com Moisés, com Jeremias, com Saulo, com tantos outros personagens bíblicos e também é assim comigo e com você. 

Fecho o raciocínio afirmando que não há motivo para frustração, somos livres para tomar nossas decisões e eleitos por Deus para efetuar o ministério que Ele, na sua infinita Soberania tem como certo. Somos livres, porém eleitos para exercer o ministério que o nosso Deus tem separado para cada um de nós. Pensando em nossa liberdade de escolha, podemos projetar um curso de ação ministerial, mas não podemos realizar o intento daquilo que projetamos, isso dependerá daquilo que o dono da obra tem determinado. Em outras palavras, nosso arbítrio tem a capacidade de tomar uma decisão, mas não o poder de realizar o seu propósito. O homem poderá exercer o dom do livre arbítrio e planejar o que tiver vontade. Mas a sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus. 

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Palhaço e o Profeta

Vivemos intrinsícados numa verdadeira problemática eclesiástica contemporânea, “o púlpito”. Com os modismos e “novidades” constantes, os pregadores se rendem a quinze ou vinte minutos de pura diversão. Kierkegaard conta uma parábola que pode servir como ilustração para o que se quer dizer. Ele conta que um circo se instalou próximo de uma cidadezinha dinamarquesa. Este circo pegou fogo. O proprietário do circo vendo o perigo do fogo se alastrar e atingir a cidade mandou o palhaço, que já estava vestido a caráter, pedir ajuda naquela cidade a fim de apagar o fogo, falando do perigo iminente. Inútil foi todo o esforço do palhaço para convencer os ouvintes. Os aldeões riam e aplaudiam o palhaço entendendo ser esta uma brilhante estratégia para fazê-los participar do espetáculo. Quanto mais o palhaço falava, gritava e chorava, insistindo em seu apelo, mais o povo ria e aplaudia. O fogo se propagou pelo campo seco, atingiu a cidade e esta foi destruída.

De forma semelhante, muitas vezes, o pregador tem apresentado uma mensagem incompreensível aos ouvintes, talvez porque ela também seja incompreensível ao próprio pregador. As pessoas se acostumaram a brincar tanto com as coisas sagradas, que não conseguem descobrir o Sagrado em meio às brincadeiras. Esta geração de pregadores sobe ao púlpito e pensam que estão em algum tipo de picadeiro. Por outro lado, os ouvintes por não perceberem a diferença entre o palhaço e o profeta, reforçam este comportamento mutante através de aplausos. Deste modo, a profecia (pregação) torna-se motivo de um simples gostar ou não gostar e o circo perde um de seus talentosos componentes. Assim, compactua-se com a indiferença dos ouvintes, que, de certa forma, estão “cansados” da palavra “Evangelho”, sem que na realidade, tenham sido ensinados a respeito do Evangelho de Cristo. A avaliação da mensagem pregada fica restrita ao gostar ou não do ouvinte. Cria-se uma categoria arbitrária do que de fato é verdadeiro ou não a partir do gosto, como se este também não fosse afetado pelas conseqüências do pecado. Na realidade, o gostar ou não deve estar subordinado ao exame das Escrituras. Procedendo assim, descobrir-se-á, para surpresa, o quão o próprio gosto pode ser pecaminoso e inconseqüente.

O Evangelho é uma mensagem acerca de Deus, da sua glória e de seus atos salvadores, acerca do homem, do seu pecado e miséria, acerca da salvação e da condenação condicionada á submissão ou não a Cristo como Senhor de sua vida. Esta mensagem que envolve uma decisão na história ultrapassa a história, visto ter valor eterno. Portanto, não podemos brincar com ela, não podemos fazer testes, estamos falando de vida e morte eternas. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado.

É preciso atenção redobrada para não cairmos nesta armadilha já que não é difícil confundir os efeitos de uma mensagem com o conteúdo do que anunciamos; a pregação deve ser avaliada pelo seu conteúdo, não pelos seus supostos resultados.

Devemos nos lembrar de que o pregador não “compartilha” opiniões nem dá suas “opiniões” sobre o texto bíblico, nem faz uma paráfrase irreverente do texto, antes, ele prega a Palavra. O seu objetivo é expressar o que Deus disse através de seus servos. Pregar é explicar e aplicar a Palavra aos ouvintes. O aval de Deus não é sobre teorias e escolhas. Portanto, o pregador prega o texto, de onde provém a verdade de Deus para o seu povo.

O púlpito não é o lugar para se exercitar as opiniões pessoais e subjetivas, mas sim, para pregar a Palavra, anunciando todo o desígnio de Deus, sob a iluminação do Espírito. Sem a Palavra, o púlpito torna-se um lugar que no máximo, serve como terapia para aliviar as tensões de um auditório cansado e ansioso, em busca de alívio para as suas necessidades mais imediatamente percebidas. Ele pode conseguir o alivio do sintoma, mas não a cura para as suas reais necessidades.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Obrigação Moral Sem Livre-Arbítrio

Nenhum sistema moral será possível a menos que o indivíduo seja considerado responsável pelas suas ações e decisões. Não poderá ser julgado se não lhe foi dada escolha, e se agiu debaixo de pressão, vinda da parte de sua natureza perdida, por opressão do diabo ou por permissão de Deus. O julgamento, em todas as sociedades humanas, se baseia na premissa que um homem podia ter agido de outra maneira, se assim tivesse querido fazê-lo. Todos os sistemas éticos, a recompensa pelas boas ações e o castigo pela má conduta, dependem do fato de que um homem poderia ter agido diferentemente, se assim desejasse. Ninguém merecerá recompensa pelo bem praticado, se porventura isso não partiu de sua própria vontade, ainda que a influência divina é que o tenha levado a essa atitude.

Alguns apologistas como Norman Geisler, irão declarar que o fato de não considerar o livre-arbítrio no homem é destruir o poder e a justiça de todo o mandamento moral que há nas Escrituras. Além disso, consideremos que as Escrituras ensinam que o homem pode falhar, até mesmo após a sua conversão. Notemos, especialmente em Filipenses 2:12, como a questão inteira da salvação é apresentada de tal modo que a poderíamos comparar com uma estrada de duas vias: uma humana e outra divina.

Há na salvação o encontro e o intercâmbio entre Deus e o homem. Todos os mandamentos que nos impelem à ação moral, conforme se vê nos capítulos terceiro e décimo segundo das epístolas aos Colossenses e aos Romanos, respectivamente, bem como em todas as demais passagens bíblicas que versam sobre a conduta humana, nada significariam, a menos que o homem pudesse ser-lhes obediente ou desobediente, de conformidade com a aceitação ou a rejeição que fizer da vontade divina, que sobre ele atua. Simplesmente não há como alguém erguer um sistema moral, com exigências e advertências válidas, com recompensas e punições, a menos que o homem possua livre-arbítrio, a menos que possa ceder aos impulsos divinos ou resistir aos mesmos. A Bíblia inteira, tanto em seu convite à salvação como em seu sistema ético, se alicerça nesse fato. O homem certamente é livre para escolher, contudo, sobre a decisão dos fatos que circundam a escolha, falaremos em artigo próximo.