terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um Sonho Interessantemente Hermenêutico

Sonhos são sempre confusos e desarmônicos, os ritmos não combinam, as estórias se misturam, normalmente é uma confusão. Lembrá-los é coisa muito rara, quase sempre em pedaços que se destoam, não contem começo nem fim. Simplesmente lembramos quando muito, de algumas partes.


Mas, não obstante a isso, tive um sonho interessantemente hermenêutico. Me peguei em um grande templo, sentado mais no fundo, buscando momentos de paz, procurando concentrar-me o máximo possível para absorver a mensagem que viria. Surgiu então o pregador, que de maneira impecável conduzia o seu sermão, tudo estava perfeito, a roupa era elegante e adequada, a retórica irrepreensível. Extremamente eloqüente, o homem de Deus elaborou de maneira extraordinária o sermão, e como pareceu ser de costume, ilustrava a mensagem, citando homens da história do cristianianismo, que segundo dava a entender, se tornaram ícones na história. Alguns eu conhecia, ainda que de longe, já outros, não faziam idéia de quem eram, a intelectualidade exibida com tanta clareza, superava o meu entendimento, mas como deveria ser, esboçava grande relevância, e eu que me constituíra leigo, decidi apenas apreciar. O lugar não era comum a mim, e não reconheci ninguém por ali, o que me deixou bastante a vontade para buscar o que fora procurar.


De repente, dois homens distintos sentam do meu lado. Eles estavam sérios e demonstravam muita reverência pelo ocorrido. Eu permanecia cabisbaixo, esforçando-me dentro do possível para compreender a mensagem. Percebi que os dois homens após executarem uma visão panorâmica pelo lugar, e atentamente ouvirem o pregador, ficaram a me observar, o que me incomodou bastante, preferia não olhar, mas quem pode controlar os sonhos?


Quando olhei, fiquei perplexo e mudo, eis que os dois homens eram Abraão e Moisés, e como que indignados com algo, me observavam aguardando uma explicação. Abraão então se dirigiu a mim, como que balbuciando, e me questionou sobre o que estava acontecendo. Tratei imediatamente de explicar que era um sermão, e antes que terminasse, Moisés me interrompeu dizendo que sabiam do contexto, mas não entendiam porque naquele sermão tantos nomes desconhecidos eram citados. Tentei, meio sem jeito, explicar que se tratava de pessoas muito importantes, ao qual Abraão meneava a cabeça, e em resposta, lançou a pergunta do porque os hagiógrafos, autógrafos e personagens bíblicos, não eram citados durante a mensagem com a mesma ênfase. Imediatamente pecebi que estava ficando vermelho, e um constrangimento tomou conta de mim, parecia que ninguém nos ouvia, e ficava a pensar porque eu.


Ambos queriam respostas a perguntas que consideravam simples, e eu tentei na medida do possível, explicar que os tempos mudaram, e era necessário que o pregador de um sermão, demonstrasse intelectualidade e profundo conhecimento. Com muita calma, e tamanha serenidade, Moisés começou a exaltar Abraão, e fez questão de lembrar Isaque e Jacó. Abraão permanecia sereno, como se não estivesse sendo exaltado (paradoxo ao seu primeiro nome), e relatou sobre alguns personagens da história como o próprio Moisés, e fez referência a Josué e Calebe. Fiquei maravilhado ao ouvir os feitos bíblicos, e como bom ouvinte, aguardei toda a história, pois citaram José. Ambos estavam indignados, e demonstravam não conseguir compreender porque aqueles nomes apócrifos, e alguns, segundo Abraão “pseudos”, estavam sendo usados durante uma mensagem que deveria falar somente da santa e bendita palavra de Deus.


Tentei ainda contornar e explicar o momento que vivemos e como as coisas estão mudadas, tentei explicar a globalização, e busquei na memória algo que aprendi na faculdade sobre homilética, mas foi em vão diante do argumento de ambos que diziam: “Palavra é Palavra”. Ao som deste dueto abri os olhos e ainda podia imaginar a cena, mas já estava acordado. Comecei então a sorrir sozinho, diante da impossibilidade da realização metódica deste sonho. Se bem que vá lá, na verdade, deveria acordar chorando e lamentando pela exortação de dois grandes nomes da Bíblia. Que o nosso Deus preserve ao menos alguns. Soli Deo Gloria!

3 comentários:

  1. Shalom!

    Uma alegria conhecer seu blog. O Eterno resplandeça
    o rosto DELE sobre ti.

    Medite no Salmo 86.11

    Nele, Pr Marcelo

    P.s>> Visite:

    http://davarelohim.blogspot.com/ e veja o texto:

    Josué, uma referência em liderança

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  2. Prezado Marcello,

    Obrigado pela visita, e pelo texto bíblico. Desejo que o irmão continue crescendo no Senhor.

    Amplexos!

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  3. Pr Val,

    Lendo o texto, logo imaginei vc sonhando e achei engraçado. Ao mesmo tempo, fiquei a pensar que é exatamente assim que ocorre hj. Sem intelectualismo nas mensagens, acabamos por "menosprezar" o pregador, embora, estejamos drasticamente equivocados, já que a Palavra é a Palavra, como disse Moisés. Estamos indo à igreja ouvir sermões cheios de informações, globalizações e às vezes até piadas; se não nos lembrassemos que estamos na igreja, acharíamos que estamos num enorme ginásio, ouvindo um eloqüente orador e provavelmente um dos grandes empreendedores de sucesso. "Os tempos mudaram", disse vc a Moisés e Abraão e é verdade, mas, mudaram para pior. Estamos tão preocupados com linguagens rebuscadas, frases de efeito e entendimento difícil e denso, que nos esquecemos que a mensagem é simples, profunda e de fácil entendimento; basta abrir o coração, derrama-lo no Altar, se despir do "eu" e deixar que o Espírito faça todo o resto.
    Tem faltado isto em nossas igrejas, mas a culpa é nossa. Nós nos tornamos exigentes e debilmentes manipulados pelo intelectualismo da globalizaçao e deste mundo de lobos capitalistas.
    Cristo deve fazer a diferença dentro de coraçoes humildes e quebrantados e não em mentes altamente intelectuais e inconscientemente moldadas pelos padrões deste mundo, onde relativisamos o Evangelho como nos é conveniente.
    Que Cristo ao vir nos buscar ainda encontre corações de obedientes adoradores e verdadeiramente servos.

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