domingo, 19 de dezembro de 2010

Visitas Ilustres

Surpreendentemente debruçado envolto as letras, decidido a compartilhar mais um artigo, fruto dos estudos da hermenêutica, encontrei-me num breve e tranqüilo cochilo. Supostamente ao acordar, fui maravilhado, quando olhando ao redor, espantei-me por completo, pois ali estavam atônitos e perturbados alguns pensadores da história, que me dissecavam com os olhos como que aguardando uma explicação, tentei reconhecê-los pelo semblante, mas foi no diálogo e na firmeza das idéias que aos poucos identifiquei Diderot, Marx, Nietzsche, Freud e Sartre, que em pé do meu lado esquerdo, requeriam explicações sobre o motivo das acusações de ateísmo, que o mundo contemporâneo os incriminava.

Ainda surpreso e estupefato pelo acontecimento, fiquei sem palavras, e completamente travado diante de pensadores tão ilustres, que deixaram sua contribuição na história, aos quais eu mesmo, por inúmeras vezes já havia usufruído. Meu maior questionamento era por que perguntavam a mim, notoriamente intelectuais gabaritados, até mesmo no Brasil estariam mais aptos a responder esta difícil pergunta. Aguardavam um parecer meu, e com olhares penetrantes me intimidavam. Foi quando Nietzsche declarou que assumidamente eram todos anti-religiosos, o que todos sinalizando com a cabeça concordaram. Mas ateísmo era outra coisa, e entre outros argumentos bombásticos fiquei estarrecido.

Inclinando a cabeça para o lado direito buscando refúgio, fui deslumbrado ao perceber a presença de Agostinho, Tomás de Aquino, Spinoza e Descartes, que para minha surpresa cumprimentaram e sorriram para o outro grupo, em sinal de amizade e admiração, e voltados para mim, aguardavam o desfecho das indagações. Perplexo, tentei forçar meu racionalismo, considerando ser meu ponto forte, e fui repreendido por Descartes, que exclamando em tom suave afirmou: “quem esta apto para lidar com números, antagônico esta do relacionamento humano”.

Diante deste pressuposto, mudei minha postura para tentar analisar com misericórdia, e busquei no meu íntimo visualizar o que Jesus faria na minha posição. Neste ínterim, começaram a dialogar entre si, e lembro-me de Freud discursando sobre a fragilidade humana, e como a consciência da diferença sexual interferia nos relacionamentos, e todos comentavam o assunto já como se eu não mais ali estivesse. Lembro-me também, das referências de Sartre ao lembrar sobre o julgamento sobre coisas que não se conhecem ou entendem, e Aquino lembrava as palavras de Jesus sobre o julgamento.

Então, como que num último suspiro, tentei abrir a boca para participar com o que acreditava ser uma contribuição, percebendo meu gesto, educadamente e com suavidade Diderot pediu silêncio, e me pareceu que Spinoza era o mais interessado. Não estava acostumado a ter uma atenção tão interessada e me deu um nó na garganta, tentei fitá-los diretamente nos olhos, tarefa difícil para um catecúmeno como eu, pois era assim que me sentia naquele momento eternizador. Subitamente, comecei a ouvir outro tipo de som, e aquela cena foi então sumindo. Quando dei por mim, estava com o rosto no teclado,  completamente amassado, e percebi que tudo não passara de um sonho. Aliviado, escolhi uma Bíblia na estante ao lado, e hermeneuticamente refleti sobre o evangelho de Mateus capítulo sete, com atenção especial aos versos um e dois. Como de costume tomei um capuccino, entregando assim a noite por encerrada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Se Amássemos

Poderíamos ser mais amados, se amássemos mais. Imagine como seria viver de forma empírica a narrativa da primeira epístola aos coríntios capítulo treze. O tema é o amor, os tópicos diversos, a essência do texto não trata de uma poesia, deveras são as poesias tratadas como um romance que não pode ser vivido. A boniteza do texto é a veracidade do conjunto das palavras, que somada a um contexto intuitivo, esclarece as mais diversas e tenras facetas do verdadeiro amor.
Por que não é possível viver aquilo que mais desejamos da vida? O amor. Certa vez o poeta disse que o amor nos faz acreditar e nos da força pra lutar. A mente humana discorre um filme de perfeito amor em sua mente, quando retorna do seu devaneio, encontra barreiras para colocar em prática o que mais gostaria. O amor. Por que somos impedidos de falar o que gostaríamos que as pessoas ouvissem de nós? Qual foi o cruel momento, em que anunciar o amor, se tornou um fardo tão pesado para a humanidade?
A sinceridade passou a se submeter à critérios estabelecidos pela sociedade. Didaticamente fica não muito difícil entender Platão quando discorreu sobre o mundo das idéias, e sorrateiramente plausível, admirar o carisma Aristotélico ao discordar diante do mestre. A resposta esta no real, afirmou. Um dedo apontando para o sublime e perfeito platonismo, o outro, nos esperançando que a possibilidade do perfeito esta ao alcance dos corações que buscam sinceridade.
O texto aos coríntios fala da impossibilidade de viver sem a presença do amor, e que tudo se torna vazio quando este sentimento não é compartilhado em tudo o que fazemos. Categoricamente, sem o amor somos a pior de todas as criaturas já formada pelo Criador. Considero este trecho da Bíblia um dos mais duros, em relação ao ensinamento e doutrina. Perpetuar nos corações sentimentos contraditórios a natureza primeira do homem, refiro-me a condição adâmica antes da queda, é tarefa hoje para os considerados fortes. Mas, verdadeiramente fortes são aqueles que meio a todas as influências contemporâneas, ainda são capazes de amar. É preciso ser forte para amar, mas não com olhos de Capitu.
Se o amor é sofredor, é benigno, se o amor não é invejoso, não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade, se o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta, se com apreço o amor jamais acaba, então, o que aconteceu conosco. Se de fato somos responsáveis por aquilo que cativamos, segundo a famosa literatura de “O pequeno príncipe”, por que o amor sem barreiras é tão difícil de acontecer.

Se sofro, então concluo que amo. Se amo, significa que meu intelecto esta ativo no contexto das Escrituras. Se penso, logo existo, palavras emprestadas de Descartes. Poderíamos estar mais felizes, vivendo melhor, curtindo mais cada parte do dia, cada situação, cada familiar, cada amigo ou colega. Se o amor jamais acaba, por que temos amado tão pouco e se ele não arde em ciúmes, por que tantas brigas infundadas? Ao estabelecer parâmetros, parafraseando, o texto finda afirmando que o maior de todos os sentimentos ou dons é o amor. Então, resta-nos exclamar: Que Deus nos ajude!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Detalhes

Em termos metodológicos gosto de pensar na hermenêutica como um mestre nos detalhes. É mister que tudo seja analisado criteriosamente, os segredos estão intrinsicados nos detalhes, e não é necessário eloqüência ou retórica para que haja a descoberta, ao contrário, a compreensão da interpretação acontece no silêncio, na meticulosa análise das palavras. O ápice do envolvimento e entendimento está nos detalhes.

Gosto quando lendo a Bíblia me deparo com detalhes que me levam a descobertas fantásticas. Procuro não ter pressa para analisar um texto, gosto de dialogar com os livros, e questionar os autores sobre coisas eternizadas que nos abalam o âmago da alma e nos colocam em xeque. É fascinante quando diante de um texto, somem as palavras e me atento apenas para absorver o máximo dos hagiógrafos.

Conhecer um livro não significa lê-lo, mas estabelecer relações com o conteúdo, entregar-se e fazer parte da história, introduzir-se no derramamento dos fatos, viver e sentir cada situação, explorar cada acontecimento e desejar compreender para ser compreendido, buscar o mitte do texto como se a vida dependesse deste descobre, amargurar a alma na busca do entendimento a fim de satisfazê-la, como se possível, plenamente.

O que faz um romance ser perfeito? Detalhes... O que faz a paixão enlouquecer os corações? Detalhes... É o vento soprando no rosto, é a palavra que tranqüiliza, é a atitude que emociona, é o gesto que sensibiliza, é o sorriso que inunda de paz. Nos detalhes é possível desvendar quase tudo sobre uma pessoa, a história é cercada de detalhes.

Analise o texto da santa palavra com um olhar voltado aos detalhes, e viva com intensidade tudo de melhor que uma vida com Deus pode te oferecer. Dialogue com os detalhes do texto, não passe por cima de nada, não ignore fatos desconhecidos, deleite-se no texto e permita que ele te conduza ao refrigério da alma, a águas tranqüilas.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ironia

Ironia e maiêutica foram os principais métodos didáticos aplicados por Sócrates. Do ponto de vista hermenêutico, Sócrates foi simplesmente brilhante. Se você almeja se tornar um hermeneuta correto, uma pessoa descente e honesta, então, você precisa ler um pouco mais sobre este homem. Conhecer a vida de Sócrates é recuperar a grandeza da condição humana, uma grandeza que veio se perdendo ao longo dos séculos, na busca pelo “ter” e não pelo “ser”.

Sócrates recusou-se a escrever sobre si mesmo, entendia que nada era dele, e nem nele mesmo brotara, portanto não tinha nada a dizer. Ficou a cargo dos discípulos, entre o mais ilustre Platão, documentar os feitos do mestre. Sócrates era a antítese do homem de sua época, sua morte pela cicuta em 399 a.C., longe de tê-lo jogado no esquecimento, transformou-o numa espécie de mito.

Incentivado pelos discípulos a fugir, Sócrates entendeu que era o mesmo que admitir a culpa e negou-se. Indagado exclamativamente pela esposa, que morreria injustamente, respondeu: “Preferias que fosse justamente? Momentos antes de entregar-se a cicuta, lembou-se de uma dívida e pediu que fosse paga... um galo. Sócrates resgata em nós, aquilo que temos de mais humano, e que se encontra perdido em meio a muitos papéis que precisamos representar para sobreviver. Se deseja ser um hermeneuta, leia, reflita e respire um pouco mais de Sócrates.

Sem dúvida, Sócrates foi o maior cristão antes de Cristo, denotado como um divisor de águas, foi um homem ao qual o mundo não era digno. Peter Kreeft foi extremamente feliz quando escreveu o livro “Sócrates e Jesus o Debate”. A história de Sócrates exerce o dom de nos mostrar que podemos ser melhores.

A maior ironia esta no paradoxo contextualizado do pensador, reconhecido como o mais sábio de sua época, afirmou a frase que se tornaria imortal: “só sei que nada sei”. Confesso que quando reflito sobre Sócrates, me emociono a ponto de envergonhar-me de todos os meus títulos. Se eu pudesse dar um conselho, diria para os catecúmenos e anciãos se debruçarem sobre Sócrates, certamente seriam hermeneutas melhores e cristãos mais etimológicos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Coração

Todo texto deve reverência a hermenêutica, não obstante, alguns textos são como que gerais, se enquadram nas mais adversas situações, e não se transformam em eisegese por esta utilidade, na verdade, os considero universais. Nem todo texto é empírico, penso que muitos não o são, neste caso o encaixe fica na história de vida de cada homem, refiro-me aqui ao gênero humano.

O profeta Jeremias fez no seu livro, uma das menções mais significativas sobre o coração de toda a Bíblia: “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas”. De fato, desde Adão notamos como o coração do homem se engana, e como conseqüência tem ocasionado o sofrimento.

Seguir o coração significa se entregar àquilo que se acredita no momento, independentemente de ser possível, real ou normal, enfim, como diria o poeta: “o coração te da asas”. Infelizmente o maravilhoso sentimento proporcionado pelo coração não é profícuo, não garante segurança, e por muitas e variadas situações, não é correspondido.

Permita-me compartilhar o meu pensamento: “prefiro a razão”. Puxa! Essa sim liga os pontos onde devem ser conectados, analisa todos os fatos, e diante duma realidade empírica autoriza ou recusa o desejo ou intenção. O sofrimento praticamente não existe, é lógica pura, e na matemática tudo se encaixa, já no coração é outra coisa, é coisa poética.

Veja, o desejo do coração é tão corrupto em relação à razão, que ele mente descaradamente. Ele, o coração, tenta fazer o homem acreditar nos maiores absurdos, e sorrateiramente insiste e convence a acreditar, ocasiona uma falsa felicidade, vive preparando engodos, melhor seria ignorá-lo, mas isso é outra coisa.

O profeta ressalva: “quem o conhecerá?” Embora a pergunta seja retórica, ele responde que o Senhor esquadrinha os corações... Amém! Quanto a mim, se pudesse, preferiria somente a razão, creio que sejam antagônicos, porque o coração fica a enganar o homem constantemente. Por que sentimentos puros e verdadeiros que brotam de situações tão sinceras são tão facilmente derrotados pela razão? Porque o coração é mau.

Explicações filosóficas e poéticas a parte, jamais entenderei o plano de Deus para esta combinação. Por que o Eterno confeccionou dois inimigos tão poderosos dentro do mesmo templo? Diante deste axioma, a idade perde a relevância, com vinte ou quarenta, a situação é a mesma. O coração nunca amadurece, e a razão por mais fortalecida que esteja, inclina-se sempre aos imaturos desejos do centro da vontade do homem.

O coração proporciona sentimentos indescritíveis, acompanhado de sofrimentos horríveis. A razão impede que o sofrimento chegue, porque já alerta os dissabores, mas, infelizmente para o homem, os desejos do coração antecedem a razão. Preferia-me, ficar somente com a razão, mas, quis Deus diferente. Perco-me nesta hermenêutica, creio que não seja possível realizá-la... Que Deus nos ajude!

sábado, 20 de novembro de 2010

Admoestação Hermenêutica

É preciso entender que a hermenêutica, não é amiga dos teólogos ou religiosos, não esta interessada em trazer paz. A hermenêutica tem se apresentado como insuportável, ela não reconsidera a opinião, e não cria adaptações aos fatos. A hermenêutica encontra plenitude em si mesma, e não depende dos intelectuais para nada, inverso disso, os pensadores que pensam pensar, se enclausuram em pensamentos imersos por livros de outros pensamentos, e não compreendem a necessidade de ouvir e aprender hermenêutica.

Entenda, a hermenêutica não esta procurando amizades, ela não deseja fazer parte do clube dos hipócritas e demagogos, não almeja se misturar com os do “meio”, tão pouco procura apoio para os seus propósitos. A hermenêutica simboliza a pureza da alma não contaminada, e o contraste de um pensamento reto, dentro de uma contemporaneidade corrompida pelo pseudo sucesso, e pela injúria religiosa, teológica e filosófica.

Praticar a hermenêutica significa aprender o tudo que já é por si mesmo, não há o que interpretar, a busca não é por algo novo, parece que poucos entendem. O exercício da hermenêutica, consiste em observar e aceitar a revelação que desde o primórdio da fundação do mundo, já esta estabelecida e impactada. Não há o que mudar, adaptar, ou revelar outra vez. Perceba, já esta tudo ali, a observação e a busca da compreensão requerem humildade de conhecimento. Estas coisas somente compreensíveis àqueles que estudaram de verdade, não por motivos de papel ou de letra, mas, de aprendizado e preenchimento.

A hermenêutica é uma escola admoestadora, em busca de alunos mansos de coração, e com palavras bem temperadas. O espírito que deseja ensinar, jamais será um hermeneuta, não importa sua coleção de papeis, somente quem tem sede do saber e reconhece sua ignorância, terá uma remota oportunidade de se tornar amigo da hermenêutica. A hermenêutica convida o aspirante a sonhar seus próprios sonhos. Viver os sonhos de outros pode causar insônia, ou até mesmo pesadelos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Icabode

No clamor de uma mulher recém enviuvada, dando a luz a um filho sem pai e sem avô, e diante de uma perspectiva derrotista e consumada do seu povo, e como que sem alternativa, entregou-se a amargura mais profunda que um verdadeiro israelita poderia sentir, a perda da glória de Deus.

Eli foi um sacerdote de Deus, e como tal tinha responsabilidades para com Deus e para com o povo. Uma palavra do sacerdote poderia ser extremamente impactante para qualquer homem ou mulher israelita, não obstante, grande era o peso do chamado convocatório de Deus.

Como a vida não é resultado de estórias, ou de contos de velhas caducas, entre latoeiros e Dimas, fatos e acontecimentos no decorrer de um período, transformam-se em histórias de vida, e Eli foi cultivando, embora sacerdote, histórias contraditórias ao sacerdócio o que findaria em Icabode.

Não discerniu o momento espiritual de Ana, confundindo-a como ébria. Seus filhos Hofni e Finéias cometiam crimes contra o Senhor, a ponto do texto bíblico chamá-los de “filhos de belial”, e o pecado era mui grande, diz as Escrituras. Na aliança estabelecida por Deus, toda a descendência de Eli assumiria o sacerdócio, porém, diante da pouca força de Eli diante da prole, o pacto foi quebrado... Na verdade, o amor de Eli estava mais nos filhos do que no Senhor. Por efeito toda casa de Eli é sentenciada por esta transgressão. O sacerdote de Deus falhou, e com esta falha todo o povo padeceu.

Para todos aqueles, que dentro do coração guardam o chamado convocatório de Deus para a prática da hermenêutica, atentem para histórias como essa, pois nenhum sacerdote religioso poderá ocupar lugar em seu coração a ponto de influenciar suas atitudes interpretativas do santo texto bíblico. Se, de fato, existe o chamado convocatório de Deus para o exercício da hermenêutica, é mister assumir exclusivamente a teocracia.

Icabode, tem se repetido continuamente na vida de pessoas que tem entregado suas vidas nas mãos dos sacerdotes. Entenda, este tempo acabou, eles não são mais necessários, pois através da nova aliança, nosso acesso ao Pai é direto. Não comprometa a boa hermenêutica, inclinando-se a discursos dominadores de sacerdotes como Eli, que tem posição social, mas a vida com Deus esta intrinsicada num Icabode. O hermeneuta precisa estar livre, para viver a teocracia exigida e anunciada pelo Rei. Soli Deo Gloria!

A Armadura de Saul

Entre tantos personagens entusiastas da Bíblia, sem dúvida Davi é uma referência hermenêutica tremenda. É verdade que ele cometeu alguns erros, e para o bem da hermenêutica dou graças a Deus. Os erros de Davi aliviam nossa condição pecaminosa, pois nos nivela como seres criados para acertar, mas que na derrocada do desejo humano falha, e, portanto, proibidos estamos de julgar, não obstante, maior peso carregará o rebelde.

Davi teve a impetuosidade de dizer não, num momento onde sua atitude, aparentemente insana o deixava ainda em maior desvantagem. Veja, ele iria desafiar o grande gigante Golias, o maior guerreiro dos filisteus, povo sanguinário e cruel. Para aliviar o seu destino, a morte, digo na perspectiva israelita, Saul ofereceu a sua própria armadura ao jovem e insano pastorzinho de ovelhas, refiro-me a animais.

Inescrupulosamente, exercendo de uma antiética tremenda, desobedecendo a ordem do rei, que absurdo, afrontando os bons costumes, e contrariando todas as tradições do momento, Davi recusa a armadura do rei, e pior, veja que menino mal educado e rebelde, disse que não estava acostumado àquilo. Como alguém que é recém chegado a um lugar, sem a experiência dos antigos e sábios, que por gerações praticam com zelo as mais perfeitas tradições, que estão habituados a reunir o conselho e reger as assembléias deliberativas, pode contrariar anos de experiência? (... pausa...).

Permita-me sorrir enquanto escrevo esta resposta: O compromisso de Davi estava na sua fidelidade e confiança em Deus. Davi tinha em seu coração a certeza de que Deus era com ele e pronto. Tradições e estratégias não faziam parte dos planos, porque não havia planos, Davi queria apenas agradar a Deus e inclinar o seu coração diante da Sua Soberana vontade.

Se você deseja ser um hermeneuta com o coração inclinado à Deus, aprenda com Davi, e lance fora esta armadura que estão colocando sobre você. Note bem, você já não possui a leveza de antes, o peso da armadura é terrível, e não pertence a Deus. Liberte-se, de um grito de independência, se olhe no espelho, enxergue Deus através da luz dos seus olhos, pois ele habita em você, e jogue fora esta armadura humana e pecaminosa. Apresente-se diante de Deus como ele te chamou, talvez, apenas com uma funda, um cajado, quem sabe é você.

Pense comigo, se a armadura de Saul era tão boa, porque ele mesmo não lutou contra Golias? Sim, é uma pergunta retórica, deixo um trecho para sua reflexão: ... “E Davi tirou aquilo de sobre si”...

Se existe uma armadura para uso, a carta aos efésios a revela. Prefiro, no entanto, sugerir “um coração quebrantado e um espírito reto”.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Como Se Faz Hermenêutica

Se você deseja ser um hermenêuta genuíno, permita-me indicar alguns caminhos. Não posso garantir com isso que terá prestígio, nem mesmo que será amado. Entenda, Platão tinha razão quando citou o célebre mito conhecido como "A caverna de Platão", ao anunciar a verdade os homens desejaram matar o benfeitor, talvez não com morte morrida, mas com morte social, psicológica, ou, enfim...morte.
Caso queira prosseguir na loucura deste pensamento, apresento o primeiro pressuposto: Leia a bendita e santa palavra de Deus, deleite-se sobre ela, faça isso porém, com uma Bíblia texto, preferencialmente com tradução mais antiga, as versões modernas contaminadas estão pelo desejo do comércio. Lembre-se de uma das 95 teses de Lutero "Sola Scriptura".
O segundo pressuposto: Neutralize os dogmas da denominação em que esta inserido, entenda que embora proclamem a palavra de Deus, estão aprisionados nestas doutrinas, que longe estão de ser as "sãs doutrinas", sugiro lembrar de Davi, quando ainda tinha um coração como o coração de Deus, e declarou a Saul: "Não posso andar com esta armadura, pois não estou acostumado".
Como terceiro: Se afaste dos intelectuais da Bíblia, eles estão contaminados pela soberba, pela altivez, pela ostentação e pela malícia, donos de sí, entendem que não há mais o que aprender, e enclausurados num egocêntrismo caiádo, desviam-se da verdade usando se possível a própria verdade.
Pressuposto número quatro: Encontre dois ou três amigos para compartilhar a verdade bíblica genuína, e não seja tolo, você não terá mais que três, e esteja feliz se alcançar um. Lembre-se, verdadeiros profetas, normalmente caminham só, quando não, algum Geasi se encosta nele, melhor será esperar em Deus a mula de Balaão.
Quinto pressuposto: Ore menos e acrescente sinceridade, leia menos e reflita com a alma, entenda que não será com o muito falar, e que a letra, sim, ela mata. Chore o máximo possível, e conte tudo à Deus, não compartilhe com homens tolos, coisas que devem ser ditas ao altíssimo.
O mais importante: Confie somente no Eterno, no Soberano e Bendito Rei dos Reis. Lembre-se do conselho de Jeremias, e confie somente em Deus.

sábado, 23 de outubro de 2010

Frederico

“Deus está morto” é talvez uma das frases mais mal interpretadas de toda a filosofia e teologia. Quando ainda catecúmeno, em uma da aulas de filosofia presenciei Friedrich Nietzsche ser massacrado como um ateu odioso. A hermenêutica bíblica também é a hermenêutica dos fatos, também é filosofica.

Na íntegra Nietzche desabafou “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós”. Seu desabafo ocorreu na voz de Zaratustra, e independe do âmago da alma de Nietzsche, pois exprime uma reflexão intelectual sobre o motivo da morte.

O mitte do raciocinio do pensador concentra-se no fato da decadência da metafísica no pensamento ocidental. A "morte de Deus" não deve ser entendida como uma blasfêmia ou uma afronta gratuita proferida por Nietzsche, como pensam muitos religiosos. Ela é uma constatação de uma situação histórica do pensamento ocidental, uma derrocada dos princípios, principalmente cristãos, que notoriamente estavam desaparecendo. "A morte de Deus, portanto, significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais (Reale)."

Reflitamos apenas num aspecto do pensamento de Nietzsche sobre a morte de Deus. Deus é moral, portanto a moral é ingrediente construcional no homem, parafraseando Descartes: “A moral é a impressão digital de Deus nos homens”. Se de fato, o homem tem sido imoral ou amoral, logo Deus esta morto (permita-me não focar os cristãos dentro deste pensamento – seria cruel), não se trata da morte de Deus como “Ser”, mas como “Estar”, não porque haja ausência da supremacia na Soberania, mas, pela reinvidicação do estar como livre, de fato, para a libertinagem e não para liberdade.

Os valores que a sociedade considera como corretos desaparecem a cada minuto, eles não tem mais garantia da impressão como fato e direito, se enquadram no mundo das idéias, Platão tinha razão, no seu “mito da caverna”, todo pensador será sempre massacrado e morto pela sua claritude do real. O nome de Deus tem sido clamado por zumbis, pois neles, Deus esta morto”.

Como se fosse possível, penso em Nieztsche hermenêuticando sobre a graça de Deus diante de um cristianismo arbitrário, hipócrita e farisaico, melhor deixar esta matéria para outro Frederico. Que Deus viva!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Nova Jerusalém

Is 11.6 Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá.Is 11.7 A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. Is 11.8 A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a sua mão na cova do basilisco.
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domingo, 26 de setembro de 2010

Estou Feliz

Estou feliz porque estamos em época de eleição. Feliz porque tenho acompanhado o horário eleitoral gratuito, e analisado as não tão distintas propostas. Feliz porque tudo esta sendo colocado muito claro, de maneira que sabemos ser tudo real e verdadeiro... Quanta seriedade nos debates, tiriricas a parte, não obstante frutas como pêra, mas deixa pra lá, isso é outra coisa.

Feliz mesmo, explico, por poder participar deste momento tão fantástico, onde os cristãos, olha só, resolveram ser o “sal do mundo”. Não é maravilhoso, acompanhar tantos pastores, bispos, missionários, padres, diáconos, etc., candidatos a deputado federal e estadual, senadores? Ah! Como estou feliz! Feliz por poder ouvir e ver tanta gente bacana, preocupada com saúde, educação, melhores salários, saneamento básico, com a pobreza (a mesma que convive conosco antes de Cristo), e até ver a beleza ingênua da pomba, ao declarar em rede nacional, o compromisso de não faltar ao trabalho... Bom, sobre isto, ainda estou digerindo, é complexo demais.

Estou feliz, porque sei que todos estes candidatos “cristãos”, tomaram a importante decisão da candidatura, porque se importam com as pessoas, porque realmente querem ser usados por Deus. Certamente, nada tem haver com o poder adquirido pela posição, nem mesmo pelas regalias do cargo, tão pouco pelos altos salários e benefícios, afinal, este seria um posicionamento dos ímpios, mas estes cristãos não, nestes podemos confiar, afinal, são “servos”, definitivamente de um deus.

Estou feliz, porque os candidatos cristãos, não estão usando o nome de Deus em vão... Não, eles estão apenas lembrando que são cristãos, que são confiáveis, gente boa. Imagina se usariam o nome de Deus, de Cristo, simplesmente para ganhar uma eleição?!

Porém, se permitirmos uma análise hermenêutica, digo, fundamentalmente bíblica sobre os cristãos como candidatos a futuros políticos, talvez encontremos um contexto paradoxal, mas, melhor não fazê-la... Melhor estar utopicamente feliz.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Esboço Homilético da Hermenêutica de II Crônicas 20:17

Texto: II Crônicas 20:17

Contexto: II Crônicas 20:1-18

I.C.T.: É Deus quem esta no controle

Tese: Não tenha medo, confia no Senhor

Objetivo: Entrega a causa nas mãos de Deus

Tema: Confiança no Senhor

Título: A Confiança Descende do Amor


Tópicos:

1 – Não lutarás a grande guerra

2 – Deus te fará ver o livramento

3 – O Senhor será convosco

sábado, 14 de agosto de 2010

Hermenêutica – 2Crônicas 20:17

Texto: Nesta batalha não tereis que pelejar; postai-vos, ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos concederá, ó Judá e Jerusalém. Não temais, nem vos assusteis; amanhã saí-lhes ao encontro, porque o Senhor está convosco.

Data/Autor: Escrito provavelmente por Esdras, por volta de 430 a.C..

História: Capítulo 17 ao 21. Ocorrido por volta de 870 a.C.

Pano de Fundo: 2Crônicas possui 36 capítulos e foi desmembrado de 1Crônicas com o qual formava originalmente um único livro. Narra acontecimentos de um período da história dos judeus, desde o reinado de Salomão, por volta de 970 a.C., até a destruição do reino de Judá por Nabucodonosor, imperador da Babilônia, fato ocorrido em torno de 586 a.C..

Motivo: Ambos os Livros de Crônicas seria uma obra paralela a Reis e Samuel, pois relatam coisas que foram deixadas de lado no relato contido em Reis e Samuel, são uma espécie de complemento, porém, cabe destacar que foram escritos a partir de um enfoque sacerdotal, ou seja, com um enfoque maior na história religiosa dos israelitas.

Contexto: 2Cr 20.1 Depois disto sucedeu que os moabitas, e os amonitas, e com eles alguns dos meunitas vieram contra Jeosafá para lhe fazerem guerra.
2Cr 20.2 Vieram alguns homens dar notícia a Jeosafá, dizendo: Vem contra ti uma grande multidão de Edom, dalém do mar; e eis que já estão em Hazazom-Tamar, que é En-Gedi.
2Cr 20.3 Então Jeosafá teve medo, e pôs-se a buscar ao Senhor, e apregoou jejum em todo o Judá.
2Cr 20.4 E Judá se ajuntou para pedir socorro ao Senhor; de todas as cidades de Judá vieram para buscarem ao Senhor.
2Cr 20.5 Jeosafá pôs-se em pé na congregação de Judá e de Jerusalém, na casa do Senhor, diante do átrio novo,
2Cr 20.6 e disse: Ó Senhor, Deus de nossos pais, não és tu Deus no céu? E não és tu que governas sobre todos os reinos das nações? E na tua mão há poder e força, de modo que não há quem te possa resistir.
2Cr 20.7 Ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?
2Cr 20.8 E habitaram nela, e nela edificaram um santuário ao teu nome, dizendo:
2Cr 20.9 Se algum mal nos sobrevier, espada, juízo, peste, ou fome, nós nos apresentaremos diante desta casa e diante de ti, pois teu nome está nesta casa, e clamaremos a ti em nossa aflição, e tu nos ouvirás e livrarás.
2Cr 20.10 Agora, pois, eis que os homens de Amom, de Moabe, e do monte Seir, pelos quais não permitiste que passassem os filhos de Israel, quando vinham da terra do Egito, mas deles se desviaram e não os destruíram.
2Cr 20.11 eis como nos recompensam, vindo para lançar-nos fora da tua herança, que nos fizeste herdar.
2Cr 20.12 Ó nosso Deus, não os julgarás? Porque nós não temos força para resistirmos a esta grande multidão que vem contra nós, nem sabemos o que havemos de fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti.
2Cr 20.13 E todo o Judá estava em pé diante do Senhor, como também os seus pequeninos, as suas mulheres, e os seus filhos.
2Cr 20.14 Então veio o Espírito do Senhor no meio da congregação, sobre Jaaziel, filho de Zacarias, filho de Benaías, filho de Jeiel, filho de Matanias o levita, dos filhos de Asafe,
2Cr 20.15 e disse: Dai ouvidos todo o Judá, e vós, moradores de Jerusalém, e tu, ó rei Jeosafá. Assim vos diz o Senhor: Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, porque a peleja não é vossa, mas de Deus.
2Cr 20.16 Amanhã descereis contra eles; eis que sobem pela ladeira de Ziz, e os achareis na extremidade do vale, defronte do deserto de Jeruel.
2Cr 20.17 Nesta batalha não tereis que pelejar; postai-vos, ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos concederá, ó Judá e Jerusalém. Não temais, nem vos assusteis; amanhã saí-lhes ao encontro, porque o Senhor está convosco.
2Cr 20.18 Então Jeosafá se prostrou com o rosto em terra; e todo o Judá e os moradores de Jerusalém se lançaram perante o Senhor, para o adorarem.

Motivo do Confronto: 19:1-3
Situação: v.3 Jeosafá teve medo porque o exército inimigo era mais poderoso.
Ação: v.4 Jeosafá move o povo a pedir socorro ao Senhor.
Oração: v.5-13 Jeosafá ora.
Reconhecimento: v. 12 Jeosafá reconhece a sua pequenez.
Resposta: v.15 Deus responde.
Instrução: v. 16
Credo: v.18
Mitte: O reconhecimento de sua pequenez, e a fé no Senhor, garantiu a vitória a Jeosafá.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Influência Socrática na Hermenêutica

Atualmente estou relendo Sócrates e admito, é fascinante. Em minha perspectiva depois de Cristo, não tenho dúvidas, Sócrates foi o maior divisor de águas de todos os tempos. No cristianismo temos o "antes de Cristo" e o "depois de Cristo". Na filosofia temos o "antes de Sócrates" e o "depois de Sócrates. Totalmente embargado pela ironia e maiêutica socrática, convido-lhes a reflexão abaixo:
O cristianismo está na condição do homem após aceitar Jesus como seu Senhor, reconhecê-lo como único Salvador. O cristão, usando o seu livre-arbítrio, pode voltar-se para o pecado, perder a fé, perder a graça de Deus e, assim, perder a salvação? Afinal, o cristão possui livre-arbítrio? Se a resposta for afirmativa, é evidente que ele poderá usá-lo, e usá-lo para abandonar a sua fé original e fazer morrer a chama do primeiro amor; se negativa, a condição de servo não seria apenas poética, mas enfática e convocatória.
A partir da decisão do primeiro casal no Éden, alguns afirmarão que as evidências escriturísticas provam que em nenhuma circunstância o ser humano perde o direito à liberdade de escolha dada por Deus. O argumento de que temos o Consolador que nos convence do pecado, e portanto não podemos cair, não parece suficiente.
O que dizer de uma pessoa que se entregou a Cristo e aceitou-o como seu Senhor e Salvador? Poderia ela, que agora é escrava de Cristo, optar em realizar ou não o chamado convocatório de Cristo para o ministério? Considerando que esta pessoa possa escolher, não estaria ela frustrando os planos de Deus? Temos realmente o direito de escolher o ministério que desejamos realizar, ou, temos o direito de rejeitá-lo? A Soberania de Deus se estabelece diante do Seu desejo perfeito para o ser criado, ou o desejo do homem prevalecerá diante do propósito do Criador? O homem é servo ou senhor? A sua vida restaurada em Cristo pertence a ele, ou Aquele que o restaurou?
A hermenêutica bíblica do texto de Atos 26:16, nos revela o termo grego “uperetes” (ministro). Enraizados dentro de uma perspectiva hermenêutica e tendo como ancora deste tema o texto citado acima, é mister buscar respostas para as referidas perguntas. Parafraseando Peter Kreeft, o debate de Cristo com Sócrates seria chocante. Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Não Sejam Mestres

Tg 3.1 Meus irmãos, não sejais muitos de vós mestres, sabendo que receberemos um juízo mais severo.

Sinceramente, me preocupo com os visitantes e principalmente com os seguidores deste blog. Verdade é que muitos passam por aqui por engano, mas para você que é um seguidor deste modesto blog, minhas mais sinceras preocupações. O motivo não é outro senão pelo texto acima.
Evidentemente, você é um amante da santa palavra, e independente da sua religião, se é que frequenta alguma, é certo que assim como eu, é apaixonado pela tal da hermenêutica. E gostar dela é gostar de exegese, é gostar de Bíblia, é gostar de Deus.
O problema é que diante do mundo eclesiástico e teológico atual, cada vez menos podemos exercer a hermenêutica. Fica fácil entender o texto acima, diante da derrocada evangélica, principalmente eclesiástica e ministerial. Exercer hermenêutica é sinônimo de tristeza e dor.
Mas, não estamos falando nada novo, permita remeter o pensamento ao profeta Jeremias, e relembrar o motivo do seu sofrimento. Não obstante, declarar a santa e bendita palavra de Deus como ela era,é, e sempre será. Jeremias não estava preocupado com o status, tão pouco com a politicagem eclesiástica, que poderia de alguma maneira favorecer-lhe um dia. Levado por um chamado intrínsico e convocatório, ele não largava a mão da hermenêutica. Homem teimoso.
O resultado não poderia ser outro, dor e tristeza por um contexto indiferente, as lamentações que o digam. Caso você já tenha sentido vontade de parar tudo, ou deixar pra lá, saiba que muitos personagens bíblicos sentiram o mesmo, e com motivos semelhantes... O texto acima.
A cobrança é maior ao hermenêuta porque ele conhece o texto, é sabedor da santa e bendita palavra. Não estou falando de teologia, filosofia, diplomas ou qualquer tipo de honra terrena, isso é outra coisa, estou falando de hermenêutica, conhecimento da santa palavra do Rei dos reis.
Permita-me convidar-lhe juntamente comigo, a continuar. Vamos levar em frente a palavra verdadeira que o Pai tem nos confiado, estaremos juntos nas dores, e também no choro. Jamais poderemos mudar o mundo, acredite, tudo irá piorar sempre. Jesus disse que o amor se esfriaria do coração de quase todos. No entanto, podemos mudar pequenas coisas, que para o Reino, poderão ser grandiosas.
Nosso fardo é maior, e a Bíblia já havia predestinado. Conhecer requer misericórdia e piedade, para que a soberba e arrogância não invada o coração. Certamente o cuidado e zelo de Deus com os mestres, os farão perdurar, para desespero de alguns.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Em Memória do Amigo, Mentor e Pastor Jamil Nassar

Morrer é um processo que todo ser criado por Deus passou ou irá passar. Todos sem exceção sabem que algum dia chegará o momento da partida do espírito. Mas, por que quando chega a hora, às pessoas sofrem tanto? Não importa o quanto o psicológico se prepare, ou qauanto se sabe sobre o assunto, quando acontece com alguém próximo, a tristeza e as lágrimas não tardam em escorrem pelos semblantes caídos.

Este inconformismo se deve a um motivo bastante simples e certamente compreensível; o homem não foi criado por Deus para morrer, antes criado foi para que vivesse eternamente. Quando na gênese o Criador formou o ser humano, estabeleceu uma árvore que teria como fundamento gerar frutos que mantivessem o homem vivo para todo o sempre, trata-se da árvore da vida.

Pelo fato do homem não ter sido criado pelo Pai para a morte, é o que faz com que o mesmo tenha um inconformismo diante desta dura e necessária realidade. O corpo precisa morrer. Não há negociação sobre esta ordenança de Deus, as orações eficazes se dobram diante da Soberania do grande Eu Sou. Morrer significa liberdade do corpo de pecado, para viver como de fato ansiavámos em Cristo.

Quando o apóstolo Paulo intrinsecamente gera em si mesmo um conflito sobre sua vontade, narrado no capítulo sete da carta destinada aos romanos, temos a evidência do fato que acima relato. Parafraseando o irmão Paulo, e assim como ele, o cristão verdadeiro deseja fazer aquilo que tem adquirido como conhecimento da palavra de Deus. Não obstante, o corpo onde de fato habitamos, luta e insiste em fazer o contrário a santa palavra, apesar de como quem esta em Cristo, bem se sabe como acertar o alvo.

Quando Cristo no getsêmani exortou seus três apóstolos, sobre isso mesmo lhes falava: “o espírito esta pronto, mas a carne é fraca”. Enquanto o cristão, de novo insisto, verdadeiro em suas intenções para com Deus e a igreja, digo, seus irmãos, habitar num corpo de carne corrompido pelo pecado, jamais poderá viver com plenitude a mensagem outrora aprendida pela soberana palavra do Senhor. Entendido, portanto, a necessidade da morte do corpo, uma vez que para o espírito não há morte prossigamos.

Quando a palavra do Criador prospera sobre a carne, ela como que entra em decomposição e fica prestes a desfalecer, porém quando a ação inversa ocorre, a morte espiritual poderá ser fato consumado. Esta luta, segundo gálatas capítulo cinco é incessante, e se o Espírito habita de fato naquele que tal coisa afirma, esta luta é em tempo e em fora de tempo.

Somente com a morte do corpo, é que nos apresentaremos ao Criador como de fato desejamos ser, perfeitos nos caminhos do Senhor e abandonados da maldade que nos contaminou pelo pecado. Não tenha por motivo de estranheza que alguns partirão por descuido, outros "porque o mundo não é digno deles", entretanto alguns, no momento preparado pelo Criador. A benção verdadeira é a certeza que o amor do Pai transpassa a carne, e nos alcança habitando dentro dela. Um dia todos seremos libertos do corpo da servidão do pecado e viveremos em verdade e paz. O zelo do Senhor dos exércitos cuidará disso.

sábado, 5 de junho de 2010

Felicidade

Após profunda imersão na área da docência nos últimos 02 meses, com saudades retorno ao blog. Gosto de refletir nos meus momentos com o Pai, sobre os acontecimentos do dia a dia, acontecimentos comuns a todos e que de alguma maneira incomodam o ser criado por Deus. Compartilharei sobre um dos assuntos que mais deixam as pessoas infelizes, a tal felicidade.
A afirmativa e pressuposto deste artigo é: Ninguém é feliz! Felicidade não existe. Quantas pessoas conhecemos ou não, e talvez você seja uma delas, que são infelizes porque não conseguem "ser felizes"? Pare para refletir, não julgue ainda, ou pelo menos tente. Num sentido quase geral, todos querem alcançar a felicidade, quando principalmente em momentos dificéis as pessoas abrem o coração, normalmente soltam a frase: "Eu só quero ser feliz".
Ora! A felicidade não é plena em sí mesma, ela não é absoluta e por isso não pode ser alcançada em seu ápice e continuidade. Todos poderão e já estão sem dúvida felizes, o "estar feliz" é permissivo, porém o "ser feliz" não.
O fato de habitarmos num corpo mortal, nos impede de alcançar a felicidade com plenitude. O corpo esta sujeito a emoções e disfunções que criam um campo intolerante, onde o suficiente passa a ser retrógrado e o possível, esta abaixo da suposta capacidade do ser. Nosso corpo mortal é incapaz de executar com continuidade as tarefas mais simples, e a procrastinação dá-nos uma falácia poética. Até mesmo o amor esta sujeito a alterações, pois o corpo muda e com ele as prioridades, os desejos e alvos, em alguns amadurecem, em outros nem tanto.
Felicidade enquadra-se na conquista de cada dia, são as conquistas desmembradas ou simplesmente nada o que nos faz felizes. O fato de pessoas estarem infelizes por causa da felicidade, é porque não compreendem que felicidade é um estado de espírito. Não há uma permissividade contínua dada pelo Criador, menos ainda ascensitiva para que tudo seja absolutamente feliz sempre.
Hoje, estamos felizes porque obtivemos sucesso numa certa empreitada, amanhã poderemos estar tristes porque alguma outra coisa não deu certo. Normal.
Vejamos na Bíblia casos como o do profeta Elias, homem cheio de Deus, que num certo momento desafia os profetas de Baal e Aserá e triunfa sobre todos, que momento maravilhoso de vitória. No dia seguinte, foge para o deserto e chega a pedir a morte para Deus. Ora! isso não parece um tanto antagônico?
Paradoxal também contrastar a felicidade de João Batista ao declarar que ele precisava ser batizado por Jesus e não o contrário, tempos depois, o mesmo João Batista pede para perguntar a Jesus se era ele mesmo que havia de vir, ou, teriam que esperar outro.
A felicidade não existe para "ser", a felicidade existe para "estar". Entendendo isso certamente todos poderão até mesmo estar mais felizes. A maturidade com Deus nos leva a entender que ponderávamos erroneamente em muitos pensamentos, que por vez tornaram-se paradigmas, e nos vestiram com uma indumentária indigesta. Sugiro que como Davi, o pastor, se anuncie em bom e alto som: "Não estou acostumado com isso".
A felicidade também requer amadurecimento. Viva em Deus e esteja feliz sempre.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pressupostos Hermenêuticos

01. Ore – Marcos 14:37-39 Voltando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, dormes? não pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Retirou-se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras.

02. Tenha alvos e objetivos – João 4:34 Disse-lhes Jesus: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra.

03. Conheça a Palavra – Marcos 12:24 Respondeu-lhes Jesus: Porventura não errais vós em razão de não compreenderdes as Escrituras nem o poder de Deus?
04. Observe tudo cuidadosamente – Marcos 11:11 Tendo Jesus entrado em Jerusalém, foi ao templo; e tendo observado tudo em redor, como já fosse tarde, saiu para Betânia com os doze.

05. Compreenda primeiro - Mateus 7:1 Não julgueis, para que não sejais julgados.
06. Saiba remir o tempo. Repouse – Marcos 6:31 Ao que ele lhes disse: Vinde vós, à parte, para um lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que vinham e iam, e não tinham tempo nem para comer.

07. Aprenda com a experiência dos outros – Mateus 8:9-10 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. Jesus, ouvindo isso, admirou-se, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que a ninguém encontrei em Israel com tamanha fé.

08. Pratique – João 14:12 Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em mim, esse também fará as [obras] que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para o Pai.

09. Torne-se competente a respeito do que fala – Mateus 7 : 28-29 Ao concluir Jesus este discurso, as multidões se maravilhavam da sua doutrina porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas.

10. Cumpra a sua missão – João 19:30 Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse: está [consumado]. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

domingo, 28 de março de 2010

Livros Apócrifos do Novo Testamento

Sob este nome são algumas vezes reunidos vários escritos cristãos de primitiva data, que pretenderiam dar novas informações acerca de Jesus Cristo e seus apóstolos, ou novas instruções sobre a natureza do cristianismo em nome dos primeiros cristãos. Ainda que casualmente algum livro não canônico se ache apenso a manuscritos do NT, isto é contudo tão raro que podemos dizer que, na realidade, nunca se tratou seriamente de incluir qualquer deles no cânon.

As obras apócrifas do NT têm formas paralelas aos livros do NT. Já se sabe alguma coisa a respeito de mais de cinqüenta evangelhos apócrifos. Alguns deles foram conservados na sua totalidade, outros, em fragmentos, e ainda outros são conhecidos apenas pelo nome. Nestes, geralmente, o autor ocultou seu próprio nome e atribuiu sua obra a um apóstolo ou discípulo. Aqueles que estão disponíveis na sua totalidade são: Evangelho segundo os Hebreus (há fragmentos do segundo século); o proto-evangelho de Tiago (irmão do Senhor); o Evangelho de pseudo-Mateus; o Evangelho da natividade de Maria; a história de José, o carpinteiro; o Evangelho segundo Tomé; o Evangelho da Infância; o Evangelho segundo Nicodemos; o Evangelho segundo Filipe; o Evangelho dos Egípcios.

Numerosos Atos dos Apóstolos também foram compostos. Entre os mais conhecidos está a coletânea chamada Atos Leucianos, porque foram colecionados por Léucio. Estas obras fragmentárias, em número de cinco, incluem Atos, os de Paulo e Tecla (segundo século), e os de Pedro (terceiro século). Epístolas, a de Barnabé (fim do primeiro século). Apocalipses, o de Pedro (segundo século), os Atos de Pilatos.

Epístolas apócrifas não são tão numerosas, porque era mais difícil falsificá-las ao ponto de apresentarem alguma aparência de autenticidade. Entre as mais conhecidas está a epístola dos apóstolos, que tratava de tendências heréticas; a epístola aos Laodicenses (Cl 4.16), seleções das cartas de Paulo (especialmente Filipenses); 3ª Corintios e a correspondência entre Paulo e Sêneca.

Os apocalipses eram modelados de modo semelhante ao Livro do Apocalipse no NT. Os mais famosos entre eles são: o Apocalipse de Pedro (século II) e o Apocalipse de Paulo (século IV). Entre outras coisas, os dois têm visões do céu e do inferno, com cenas de bem-aventurança e descrições lúgubres do castigo.

Uma das mais relevantes descobertas de obras apócrifas do NT foi feita em 1946, em Nag Hammadi, cerca de 50 km ao norte de Luxor, no Egito. Eram trinta e sete obras completas, e cinco obras fragmentárias, geralmente com uma tendência gnóstica, todas escritas em cóptico, traduzidas de originais gregos.

domingo, 14 de março de 2010

Evangelhos Sinóptos

Para uma extração hermenêutica correta dos Evangelhos, é mister cmpreendê-los de forma distinta. Os exegetas chamam evangelhos sinópticos os de Mateus, Marcos e Lucas; desde que a exegese começou a ser aplicada à Bíblia ainda no século XVIII, que os especialistas se aperceberam que dos quatro evangelhos, os três primeiros apresentavam grandes semelhanças entre si, de tal forma que se colocados em três grelhas paralelas, donde vem o nome sinóptico, do grego συν, "syn" («junto») e οψις, "opsis" («ver»), os assuntos neles abordados correspondiam quase inteiramente. Por parecer que quase teriam ido beber as suas informações a uma mesma fonte, como os primeiros grandes exegetas eram alemães, designaram essa fonte por Q, abreviatura de Quelle, que significa precisamente «fonte» em alemão.

Os evangelhos sinópticos estão relacionados um com o outro segundo o seguinte esquema: se o conteúdo de cada evangelho é indexado em 100, então quando se compara esse resultado se obtém: Marcos tem 7 peculiaridades e 93 coincidências. Mateus tem 42 peculiaridades e 58 coincidências. Lucas tem 59 peculiaridades e 41 coincidências. Isso é, 13/14 (treze quatorze avos) de Marcos, 4/7 de Mateus e 2/5 de Lucas descrevem os mesmos eventos em linguagem similar.

O estilo de Lucas é mais polido em relação a Mateus e Marcos, com menos hebraísmos. Lucas utiliza algumas palavras latinas (Lucas 7,41; 8,30; 11,33; 12,6 e 19,20), mas nada de termos em aramaico ou hebraico, exceto sikera, uma bebida estimulante da natureza do vinho, mas não processada de uvas (do hebraico shakar, "ele está intoxicado", Levítico 10,9), provavelmente vinho de palmeira. Esse evangelho contém 28 referências distintas ao Antigo Testamento. Quanto ao quarto evangelho, o de João, relata a história de Jesus de um modo substancialmente diferente, pelo que não se enquadra nos sinópticos.

Enquanto os evangelhos sinópticos apresentam Jesus como um personagem humano, demarcando-se dos comuns pelas suas ações milagrosas, já o evangelho de João descreve um Jesus como um Messias com caráter divino, que traz a redenção e absolução ao mundo. Resultante do esclarecimeto literário, observaremos que a hermenêutica do Evangelho de João, não será a mesma do sinópticos.

sábado, 6 de março de 2010

Divisões da Teologia

A teologia pode ser dividida em quatro partes:

1- Teologia Sistemática: usa materiais que encontramos na escritura sagrada, nas ciências psicológicas e na história com o fim de encontrar um organismo completo no qual todas as partes estejam sistematicamente relacionadas com o que conhecemos de Deus, e com as relações entre Deus e o universo. A fonte principal da teologia sistemática é a Biblia, ponto de partida para conhecermos o que ela ensina de Deus e suas relações com a criação. O uso das verdades da ciência e da filosofia torna-se possível quando estes estão em harmonia com as verdades das escrituras. A história, principalmente, a história das doutrinas, é consultada, pois em muitos aspectos ajudam na compreensão dos efeitos das escrituras na experiência humana.

2- Teologia Bíblica: usa somente materiais encontrados nas escrituras, procuram organizar e classificar esses materiais de uma forma científica nas discussões das várias doutrinas. Neste contexto teológico, as teorias humanas não são reputadas como que de valor, elas são abandonadas. A única fonte é a Biblia.

3- Teologia Histórica: segue o desenvolvimento das diferentes doutrinas do cristianismo desde o tempo dos apóstolos até os nossos dias, registrando os efeitos e resultados destas doutrinas na vida cristã e nas organizações do Reino de Deus no mundo. As fontes da teologia histórica são as diferenças encontradas entre os escritos teológicos através dos tempos e os simbolos das diferentes denominações.

4- Teologia Prática: é o uso prático da própria teologia como resultado da influência na vida do homem, ajudando-o a levar adiante o Reino de Deus no mundo. Ela se expressa pela homilética, pela prática eclesiástica e fundamentalmente pela hermenêutica.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Origem, Contexto e Estrutura Fundamental da Teologia de Paulo

O estudo de Paulo começa com o reconhecimento de que ele “... era um homem de três mundos: judaico, grego e cristão”.
Background

Paulo e o Helenismo. A familiaridade com o mundo grego é indicada pela sua origem (Tarso, centro do epicurismo) e pelo estilo e vocabulário helênico. Ele foi capaz de “... interpretar o evangelho numa forma que fosse compatível com a cultura helênica.” Mas não há fusão de idéias gregas com a teologia judaico-cristã.

Paulo e o judaísmo. Na base da mentalidade e formação de Paulo está o ambiente judaico, do qual ele próprio dá testemunho (Fp 3.5,6; 2Co 11.22; Gl 1.14; At 22.3). Como Paulo nunca recebeu uma “teologia pronta”, suas idéias devem ser entendidas a partir de seu embasamento original. Em princípio, há pouca dúvida de que os alicerces do pensamento Paulino estavam no AT e no judaísmo de seu tempo. “... Paulo estava preparado, como teólogo judeu, a pensar, sob orientação do Espírito Santo, nas implicações do fato de que o Jesus de Nazaré crucificado era de fato o Messias e o Filho de Deus ressurreto e elevado ao céu”. O problema é que o judaísmo não era uniforme; era composto de várias correntes, especialmente a rabínica (farisaísmo), a apocalíptica, a helenista (diáspora) e a qumrânica. Essas correntes interagiam e não eram puras.
Assim, propôs-se que Paulo fosse basicamente rabínico (W. D. Davies), apocalipsista radical (Schweizter), sincretista que fundiu o cristianismo judaico primitivo com as religiões de mistério ou um helenista com características protognósticas. Provavelmente o embasamento teológico de Paulo é judaico, farisaico (rabínico) e apocalíptico, mas aberto a certa influência das outras correntes judaicas e do helenismo.

A religião de Paulo reflete sua origem judaica, no monoteísmo, culto, ética, fé nas escrituras hebraicas e até na hermenêutica. Como judeu, afirmava a centralidade da Lei, que incluía as tradições (Gl 1.14). Como os outros fariseus, Paulo “... tinha perdido o sentido da revelação de Deus e a sua fala através da voz viva da profecia.”, agarrando-se ao Torah. Participava da esperança escatológica básica do judaísmo, que remonta aos profetas do AT, na estrutura apocalíptica de duas eras (olam hazzeh e olam habbah), esperando a salvação futura de Deus. Era um perseguidor dos cristãos na medida em que reconhecia em Jesus a negação do judaísmo farisaico, que para ele era a fé bíblica. Jesus não poderia ser o Messias, nem seus discípulos o povo messiânico; portanto o movimento representado por Estevão tinha de estar errado (At 7.35ss., 58; Gl 1.13; 1Co 15.9; Fp 3.6), e “... a própria existência da igreja, com sua afirmação de ser o povo do Messias, era uma ameaça ao judaísmo”.

Paulo conheceu o cristianismo helenista de Jerusalém. Como judeu helenista originário de Tarso, Paulo freqüentava a sinagoga dos “libertos”, onde ouviu a pregação irresistível do helenista Estevão (At 6.8-10). As acusações de que este ensinava contra o Templo e contra a Lei (6.13,14) tem seu fundo de verdade claro no sermão que ele proferiu, especialmente no final, onde afirma que Deus não habita em templos humanos e que os próprios judeus jamais cumpriram a Lei (7.48-53). O desafio reformatório de Estevão ao judaísmo abalou o equilíbrio alcançado entre a igreja e o judaísmo com Gamaliel (5.33-42) levando a uma grande perseguição da qual Paulo foi um importante personagem (7.54-8.1-3; 9.1ss.). Esse mesmo desafio reformatório é encontrado posteriormente no ministério de Paulo.

A Experiência Revelatória

A experiência no caminho de Damasco está na origem da religião de Paulo. Diversas tentativas foram feitas para explicar a experiência; ela certamente não foi fruto de reflexão, pois todos os testemunhos indicam que a mudança foi quase instantânea; alguns propuseram que teria sido uma crise psicológica, mas não há indícios de que ele estivesse psicologicamente predisposto a tal crise (cf. Fp 3.4,7; Rm 2.13,23). A história não consegue encontrar uma explicação natural e limita-se ao silêncio; a interpretação existencial vê uma mudança radical no autoentendimento, mas como bem coloca Ladd, essa mudança não é o conteúdo, e sim o resultado da experiência de Damasco. Paulo nunca diz que sua insatisfação com o judaísmo o levou à fé e à experiência com Cristo; pelo contrário, afirma que o encontro com Cristo produziu sua insatisfação com o judaísmo. A melhor opção é sem dúvida ouvir o que o próprio Paulo disse. Para ele o que aconteceu foi “... uma aparição a ele do Jesus ressurreto, glorificado...” (cf. Gl 1.12; 1Co 9.1; 15.8; At 9.1-9; 22.6-16; 26.12-18). Essa é a única alternativa viável para explicar a transformação de Paulo.

A experiência de Paulo está na origem de sua teologia. Através da visão do ressurreto Paulo pôde compreender que: 1) Paulo viu que Jesus é o Messias e o Filho de Deus (At 9.20). Ele percebeu naquele momento a presença da glória de Deus na face de Jesus, com a implicação de que Cristo era o revelador de Deus e a sua imagem (2Co 4.4-6). Isso também, necessariamente, levou a uma reavaliação a respeito da função da Cruz; ela não poderia significar a condenação pelo pecado devendo ser antes compreendida como um ato redentivo de Deus. 2) Paulo viu o Cristo ressuscitado, e isso trazia conseqüências dramáticas. Ele estava consciente de que a presente era é má (Gl 1.4; Rm 8.35; Fp 2.26; Rm 8.21; 1Co 11.32), mas se viu diante de um fato novo: a ressurreição e glorificação de Jesus. Paulo entendeu que na ressurreição de Jesus, a ressurreição escatológica, e, portanto, a era vindoura já tinha começado (1Co 15.21-23,52). Isso exigiu uma modificação na estrutura de duas eras, com a introdução da idéia de que estamos num tempo intermediário, que pertence às duas eras (um entre tempos; cf. 1Co 10.11). Ainda há, no futuro, o dia do Senhor, que é o dia de Cristo, a parousia (1Ts 5.2; 2Ts 2.2; 1Co 1.8; 2Co 1.14; Fp 1.6; 1Ts 2.19; 2Ts 2.1; 1.12), mas o crente já participa de uma nova ordem de existência, de novidade plena, por meio de Cristo ou “em Cristo” (2Co 5.16,17; cf. Is 65.17; Ap 21.5).
O Novo Homem foi gerado! 3) Paulo viu a graça de Deus. Naquele momento, tanto o sistema sacrifical do culto do Templo, como o complicado sistema da religião legalística farisaica entraram em colapso na mente de Paulo, pois com tudo isso ele era inimigo de Deus, e sem nada disso, os cristãos eram o povo de Deus! Com isso Paulo foi levado a reinterpretar o papel da lei e o próprio Templo. Mas o fator fundamental foi a sua própria experiência da graça. Paulo estava no meio de uma experiência de ira e revolta quando foi alcançado pela graça. Em 1Tm 1.12-17 ele conta essa experiência como sendo o “transbordamento da graça” (vs 14). Nesse momento Paulo foi obrigado a reconhecer a suficiência e a invencibilidade da graça, bem como a sua localização histórico-redentiva: a pessoa de Jesus. 4) Paulo viu na Igreja o novo povo de Deus.
A conexão íntima entre Deus e os cristãos ficou evidente no questionamento: “porque me persegues”? É possível que essa pergunta tenha dado origem à sua percepção da igreja como o “corpo de Cristo”. 5) Paulo teve uma experiência “pneumática”. Ele entendia o Dom do Espírito como o conhecimento pessoal do amor de Deus (Rm 5.5; 8.15), conhecimento que ele obteve a partir da conversão. Em 2Co 4.6 ele dá testemunho de que a conversão envolve um conhecimento subjetivo da presença da glória de Deus em Cristo, um “brilhar de Deus” no coração. Mas um pouco antes, em 2Co 3.12-18, a visão da glória de Deus em Cristo foi identificada com a liberdade do Espírito Santo. Assim a visão de Cristo por si mesma gerou tanto sua compreensão sobre a natureza objetiva de Cristo como a sua compreensão da experiência subjetiva do “Cristo-espírito”. Assim, mais tarde, Paulo pôde elaborar a sua conclusão de que o Espírito Santo prometido no AT para o tempo da salvação foi finalmente derramado.

Reunindo estes elementos, temos a base da compreensão de Paulo a respeito do evangelho; Cristo como o revelador da glória-imagem de Deus, e o ponto de inflexão da história da redenção; o início da vitória de Deus e a irrupção do eschaton por meio da cruz-ressurreição; a graça de Deus como o conteúdo essencial da ação de Deus em Jesus; e a criação de um novo povo de Deus que experimenta já os benefícios da salvação.

A Tradição Cristã Primitiva

Paulo recebeu a tradição da igreja primitiva. Embora ele afirme que recebeu o evangelho por revelação (Gl 1), também ensina abertamente que o recebeu por tradição (1Co 15.1ss.). Não há qualquer contradição aqui, pois o evangelho constitui-se de fato e interpretação: 1) Paulo pode ter conhecido a notícia sobre Jesus (a tradição) antes mesmo da conversão, mas a interpretação dessa notícia não lhe veio enquanto não teve a experiência revelatória. Só então Paulo conheceu o evangelho, pois “O Evangelho é, ao mesmo tempo, tradição histórica e querigma pneumático por natureza.” Toda a interpretação teológica que Paulo fez do kerigma tradicional é parte o evangelho, mas não veio senão por revelação; 2) Por outro lado, o evangelho não pode ser outra coisa que não tradição do fato, pois é o relato de uma situação histórica definida – o evento de Cristo. Assim, mesmo para Paulo, o evangelho é recebido por tradição.

Fórmulas doutrinárias e de confissão podem ser encontradas em Paulo. São de caráter cristológico e soteriológico, tendo origem na igreja da palestina (1Co 15.3-5; Rm 1.3ss.; 1Ts 1.9,10; Tt 3.4-7) ou talvez na igreja helenista (1Co12. 3; 10.9?). Há também fórmulas sobre Deus (1Ts 1.9; 1Co 8.6) e talvez alguns hinos (Fp 2.6-11; Cl 1.15-20; 1Tm 3.16; 2Tm 2.11-13).
A tradição parenética da igreja é aproveitada por Paulo em diversos lugares. Isso explica a semelhança entre exortações paulinas e as presentes em outros textos do NT, especialmente 1 Pedro (cf. Rm 12//1Pe 2.11-3.22; Rm 12.17//1Pe 3.9; Rm 13.1-7//1Pe 2.13-17).

Os ditos do Jesus terreno são citados diretamente em algumas ocasiões (1Co 7.10; 9.14; 11.23-26; 1Ts 4.15; 1Tm 5.18) ou aludidos (Rm 12.14-17; 13.7-10; 14.14; 1Co 4.17; 6.1-7). Não são, porém comentados extensivamente.

As Escrituras

Paulo considera as Escrituras do Antigo Testamento inspiradas. Para ele elas são “sagradas” (Rm 1.2; 2Tm 3.15), contém os “oráculos de Deus” (3.1,2), suas palavras são citadas como tendo autoridade (Rm 4.3,17; 10.11; Gl 4.30), elas são identificadas com a fala de Deus (Rm 9.17), elas são inspiradas por Deus (2Tm 3.16). O texto de 2Tm diz que 1) “toda” (pasa) a Escritura é inspirada; isso indica que tudo o que é reconhecido como Escritura, ou, tudo o que é canônico, é inspirado; 2) usa a palavra Theopneustos, “divinamente inspirada” para destacar a origem divina da Escritura. Exatamente por ter um conceito tão alto das Escrituras, Paulo busca relacionar seu evangelho com elas, fundamentando-o e ilustrando-o com citações e alusões.

Paulo interpreta a Escritura como Promessa e Lei. Ele distingue claramente entre Lei e Promessa, ambas presentes na Escritura (Rm 9.4; 4.13,14; Gl 3.17,18, 21). A Lei foi dada com uma função limitada na economia da salvação (Gl3. 24,25), mas a Promessa é anterior à Lei e a excede. A Promessa inclui as promessas do AT (Rm 9.4; 15.8; 2Co 1.20; 7.1), a vida (Gl 3.21; Rm 4.17), a justiça (Gl 3.21), o Espírito (Gl 3.14, Ef 1.13), a filiação (Rm 9.8; Gl 4.22), “... em suma, a salvação escatológica.” A Promessa é uma aliança (Gl 3.17; Ef 2.12).

Paulo interpreta a Escritura Cristocentricamente. Cristo cumpre a Escritura, pois nele se dá o sim de Deus para todas as promessas do AT (2Co 1.20). Ele confirmou as promessas (Rm 15.8) e as consolidou (Rm 4.3). Além disso, a Lei encontra Nele seu “fim” (Rm 10.4). Ela própria testemunha da justiça de Deus (Rm 3.21). Dessa forma, “Todo o núcleo substancial do evangelho está contido em promessa na Escritura.” a Escritura como um todo testemunha de Cristo e o evangelho de Cristo está em continuidade direta com a revelação do AT (Rm 1.17; 4.3-8, 17,18; 3.21; 16.25,25; 1Co 15.1-4).

Paulo interpreta a Escritura Pneumaticamente. Cristo é o centro da Escritura, a chave para o seu entendimento. Mas ela só pode ser entendida dessa forma pela iluminação do Espírito, a partir do evento de Cristo (2Co 3.11-18). Os incrédulos tem seus sentidos “embotados” quando lêem o AT (3.14), e o entendimento “cegado” (4.3,4). O reconhecimento da centralidade de Cristo depende de uma iluminação divina (4.6), por meio da conversão (3.16). Assim, o entendimento da Escritura coincide com a fé em Jesus.

Paulo interpreta a Escritura Escatologicamente. O sentido final da Escritura só seria desvelado no escathon, quando suas promessas se realizariam. A comunidade escatológica é a comunidade que vê diante de si o cumprimento das promessas de Deus, e da própria Escritura (2Co 3.6,14), sendo, portanto o destino final da Escritura (1Co 10.11; Rm 15.4). Ela é assim o “Antigo Testamento” (2Co 3.14).

Paulo interpreta a Escritura Tipologicamente. Em 1Co 10.11 Paulo diz que o que aconteceu no AT é “exemplo” (typikos; synenbanein). “... nos eventos narrados na Escritura, devem ser vistos representados ‘tipicamente’ os eventos da vida do leitor.” É o caso de Abraão, cujo relato de sua justificação se dirige a nós (Rm 4.23-25), bem como o relato de sua eleição (Gl 3.6-18) ou dos Israelitas que caíram na idolatria (1Co 10.1-11), ou de Adão (Rm 5.12-21).

Paulo utiliza as técnicas da exegese rabínica. Temos assim elaborados “midrashim” em Gl 3-4, Rm 9-11 e Ef 2. Em Gálatas, por exemplo, Paulo usa regra midráshica segundo a qual quando dois textos estão em contradição, um terceiro texto pode resolvê-la (3.10-14), ou a técnica de ler um substantivo coletivo como um singular, referindo-se a um indivíduo (3.16-18). . Em Rm 5.15-17 usa a “conclusão a minore ad maius”, em Rm 4.3-8 a conclusão por analogia. Usa também a alegoria própria do judaísmo helenista (1Co 9.9ss.; 10.4; Gl 4.21-31).

A Autoridade Apostólica

A tarefa apostólica e as igrejas. O apostolado foi a função mais importante já desempenhada desde o nascimento da igreja. As qualificações para o apostolado eram o ser testemunha ocular da ressurreição (At 1.22; 1Co 9.1), a vocação do Senhor e os sinais e prodígios (2Co 12.12; Rm 15.19; Gl 3.5). O apóstolo tinha de ser considerado como o próprio Senhor, e era incumbido de pregar o evangelho e fundar igrejas (Rm 1.1; 1Tm 2.7; 2Co 2.17-3.3). A autoridade apostólica não significava infabilidade (cf. Gl 2.11ss.; At 15.7ss.). Também não significava domínio dos crentes. “... a autoridade dos apóstolos parece ter sido exercida mais a nível moral e espiritual, e não haver sido incorporada nas estruturas legais e institucionais.” (2Co 1.24; 4.2,5; 11.20; 1Co 7.23). O verdadeiro apóstolo serve de maneira desinteressada (2Co 11.12).

Paulo Magister: a autoridade divina do apostolado. Como apóstolo, Paulo tinha consciência de ser o agente da revelação, ou do “mistério” agora manifesto (Rm 16.25,26), considerando-se o portador da revelação (Rm 15.19; 1Co 4.1; Cl 4.3; Ef 3.3,5). Por isso a atitude de Paulo para com sua própria mensagem era de que esta tinha autoridade divina; “... suas cartas refletem um senso de autoridade, à luz da qual se tem que ler todo o pensamento de Paulo.” (cf. 1Co 7.10,12, 40; 14.37; 2Co 10.8; 11.6; Gl 1.6ss.; 2Ts 3.14; 2Co 2.9; 8.8; Fp 3.15). Paulo reivindica autoridade a partir de sua vocação apostólica (At 9.15,16; 22.15; 26.17,18; Gl 1.15ss; 1Co 9.16ss.; 2Co 10.8; 13.10; Gl 2.7-9), e divide a autoridade com os outros apóstolos (1Co 12.18; Ef 4.11).

O conteúdo da pregação apostólica. O conteúdo da pregação apostólica é o evangelho, o mysterion tou euangelion que foi revelado aos apóstolos (Rm 16.25,26; Gl 1.11,12; Ef 6.19), e esse conteúdo inclui tanto a proclamação do fato histórico da morte e ressurreição de Jesus como do seu significado redentor. Esse fato fica bem claro, por exemplo, em 1 Coríntios. Ao combater uma distorção do evangelho, feita por mestres de tendências helenizantes em Corinto, Paulo os acusou de não estarem realmente entendendo o significado da cruz. Nessa discussão, que transparece ao longo da carta, ele deixou claro que o mistério revelado de Deus envolve não só o próprio fato histórico da morte e ressurreição de Jesus, como também o sentido da cruz, como Deus usou “... a profundidade da humilhação e da degradação como meio de salvação.” (1Co 1.17,23; 2.7). Devemos entender, portanto que tanto a totalidade do evento histórico de Jesus, como a interpretação apostólica, que faz parte deste evento, são a revelação.

A autoridade da tradição apostólica. A revelação não é somente o evento histórico passado; tampouco é a confrontação com Deus que ocorre na palavra pregada, como quer Bultmann . Para Paulo, a revelação acontece, não só no evento histórico, mas num sentido, quando o evangelho é proclamado (Rm 1.16; 16.25,26; Ef 6.19; 1Co 1.21). Assim, há uma unidade dinâmica entre o evento e a proclamação do evento, e a proclamação é a atualização do evento.
O conceito de tradição em Paulo corrobora com essa idéia. Ele usa um vocabulário técnico das tradições judaicas orais (paradosis;, paradidomi, paralambano) para se referir ao evangelho e aos ensinos transmitidos aos crentes (1Co 11.2,23; 15.1-5; Gl 1.9; 1Ts 2.13; 2Ts 2.15; 3.6). Mas seu conceito de tradição distingui-se do conceito judaico porque a recepção da verdade evangélica significava receber o próprio Cristo como Senhor (1Ts 2.13; 1Co 15.1; Cl 2.16; Rm 10.8,9), possiblilitada pelo Espírito (1Co 12.3). Assim, a tradição tem um caráter histórico mas também um caráter kerigmático-pneumático; e a palavra pregada é ao mesmo tempo palavra de homem e palavra de Deus (1Ts 2.13; Ef 1.13; Cl 1.5,25; 1Co 1.18,21; 2Co 5.19; Fp 1.14; 2.16; 2Tm 2.9,19), e o próprio Deus se encontra com os homens na palavra da cruz.
A tradição é tanto fixa (Gl 1.8,9), não podendo ser modificada, como dinâmica, podendo ser aumentada, por meio do ensino dos apóstolos, que revelam as implicações do evento de Cristo. A tradição apostólica faz, portanto, parte da revelação. Em Gálatas, Paulo não nega que a revelação venha por meio da tradição; apenas afirma que, como apóstolo, ele recebeu a revelação do glorificado independentemente da tradição. Mas ainda assim ele reconhecia a tradição, como veremos (cf 1Co 11 e 15).

A natureza e autoridade divina das epístolas. Com toda certeza “somos afortunados em ter uma substancial coleção de fontes primárias do próprio punho de Paulo” As epístolas são produtos do exercício da autoridade apostólica de Paulo, na disciplina, pregação e instrução doutrinária. Elas participam, portanto, da mesma autoridade divina de Paulo como extensões permanentes de sua função apostólica, constituindo o nosso acesso privilegiado ao evangelho de Paulo. Por outro lado, a natureza aliterária e prática das epístolas de Paulo cria dificuldades especiais para seu entendimento. Isso significa que Paulo não era um teólogo sistemático. Johann Christiaan Beker propôs como chave para a teologia de Paulo lermos as cartas como “... interação entre o centro coerente e interpretação contingente”. Ou seja, a mensagem única de Paulo é o ponto de partida para suas reflexões e aplicações práticas. Assim, “... podemos reconhecer uma teologia paulina como uma interpretação do significado da pessoa e da obra de Cristo em sua importância prática para a vida cristã, tanto individual como coletiva.”
Outra dificuldade na leitura de Paulo é que não temos o seu pensamento completo. O que temos são discussões de sua teologia aplicada às necessidades práticas das igrejas. Assim, o que temos, devemos aos acidentes da história . Por essa razão é um grande erro trabalhar com a suposição de que o que não está nas epístolas necessariamente era desconhecido de Paulo (especialmente a questão da vida terrena de Jesus), pois como bem colocou o autor, “... o silêncio não significa ignorância.” Quanto à falta de enquadramento histórico para certos ensinos de Paulo, devemos evitar juízos absolutos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sinopse da História da Bíblia

O nome "Bíblia" vem do grego "Biblos", nome da casca de um papiro do século XI a.C.. Os primeiros a usar a palavra "Bíblia" para designar as Escrituras Sagradas foram os discípulos do Cristo, no século II d.C.

Ao comparar as diferentes cópias do texto da Bíblia entre si e com os originais disponíveis, menos de 1% do texto apresentou dúvidas ou variações, portanto, 99% do texto da Bíblia é puro. Vale lembrar que o mesmo método (crítica textual) é usado para avaliar outros documentos históricos, como a Ilíada de Homero, por exemplo. Foi a primeira obra impressa por Gutenberg, em seu recém inventado prelo manual, que dispensava as cópias manuscritas.

A divisão em capítulos foi introduzida pelo professor universitário parisiense Stephen Langton, em 1227, que viria a ser eleito bispo de Cantuária pouco tempo depois. A divisão em versículos foi introduzida em 1551, pelo impressor parisiense Robert Stephanus. Ambas as divisões tinham por objetivo facilitar a consulta e as citações bíblicas, e foi aceita por todos, incluindo os judeus.

Foi escrita e reproduzida em diversos materiais, de acordo com a época e cultura das regiões, utilizando tábuas de barro, peles, papiro e até mesmo cacos de cerâmica. Com exceção de alguns textos do livro de Ester e de Daniel, os textos originais do Antigo Testamento foram escritos em hebraico, uma língua da família das línguas semíticas, caracterizada pela predominância de consoantes. A palavra “Hebraica" vem de "Hebrom", região de Canaã que foi habitada pelo patriarca Abraão em sua peregrinação, vindo da terra de Ur.

Os 39 livros que compõem o Antigo Testamento (sem a inclusão dos apócrifos) estavam compilados desde cerca de 400 a.C., sendo aceitos pelo cânon Judaico, e também pelos protestantes, católicos ortodoxos, igreja católica russa, e parte da igreja católica tradicional. A primeira Bíblia em português foi impressa em 1748. A tradução foi feita a partir da Vulgata Latina e iniciou-se com D. Diniz (1279-1325).

Não foi uma única pessoa que escreveu a Bíblia. Muita gente deu a sua contribuição: homens e mulheres, jovens e velhos, pais e mães de família, agricultores e operários de várias profissões; gente instruída que sabia ler e escrever e gente simples que só sabia contar histórias; gente viajada e gente que nunca saiu de casa; sacerdotes e profetas, reis e pastores, pobres e ricos, gente de todas as classes, mas todos convertidos e unidos na mesma preocupação de construir um povo irmão, onde reinassem a fé e a justiça, o amor e a fraternidade, a verdade e a fidelidade, e onde não houvesse opressor nem oprimido.

A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou muito tempo, mais de mil anos. Começou em torno do ano 1250 antes de Cristo, e o ponto final só foi colocado cem anos depois do nascimento de Jesus. Aliás, é muito difícil saber quando foi que começaram a escrever a Bíblia, pois, antes de ser escrita, a Bíblia foi narrada e contada nas rodas de conversa e nas celebrações do povo. E antes de ser narrada e contada, ela foi vivida por muitas gerações num esforço teimoso e fiel de colocar Deus na vida e de organizar a vida de acordo com a justiça.

No começo, o povo não fazia muita distinção entre contar e escrever. O importante era expressar e transmitir aos outros a nova consciência comunitária, nascida neles a partir do contato com Deus. Faziam isto contando aos filhos os fatos mais importantes do seu passado. Como nós hoje decoramos a letra dos cânticos, assim eles decoravam e transmitiam as histórias, as leis, às profecias, os salmos, os provérbios e tantas outras coisas que, depois, foram escritas na Bíblia. A Bíblia saiu da memória do povo. Nasceu da preocupação de não esquecer o passado.

A Bíblia não foi escrita no mesmo lugar, mas em muitos lugares e países diferentes. A maior parte do Antigo Testamento e do Novo Testamento foi escrita na Palestina, a terra onde o povo vivia, por onde Jesus andou e onde nasceu a Igreja. Algumas partes do Antigo Testamento foram escritas na Babilônia, onde o povo viveu no cativeiro no século VI antes de Cristo. Outras partes foram escritas no Egito, para onde muita gente emigrou depois do cativeiro. O Novo Testamento tem partes que foram escritas na Síria, na Ásia Menor, na Grécia e na Itália, onde havia muitas comunidades, fundadas ou visitadas pelo apóstolo Paulo.

Ora, os costumes, a cultura, a religião, a situação econômica, social e política de todos estes povos deixaram marcas na Bíblia e tiveram a sua influência na maneira de a Bíblia nos apresentar a mensagem de Deus aos homens.

A Bíblia não foi escrita numa única língua, mas em três línguas diferentes. A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico. Era a língua que se falava na Palestina antes do cativeiro. Depois do cativeiro, o povo de lá começou a falar o aramaico. Mas a Bíblia continuou a ser escrita, copiada e lida em hebraico. Para que o povo pudesse ter acesso à Bíblia, foram criadas escolinhas em toda parte. Jesus deve ter freqüentado a escolinha de Nazaré para aprender o hebraico. Só uma parte bem pequena do Antigo Testamento foi escrita em aramaico. Um único livro do Antigo Testamento, o livro da Sabedoria, e todo o Novo Testamento foram escritos em grego. O grego era a nova língua do comércio que invadiu o mundo daquele tempo, depois das conquistas de Alexandre Magno, no século IV antes de Cristo.

Assim, no tempo de Jesus, o povo da Palestina falava o aramaico em casa, usava o hebraico na leitura da Bíblia, e o grego no comércio e na política. Quando os apóstolos saíram da Palestina para pregar o Evangelho aos outros povos, eles adotaram uma tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito no século III antes de Cristo para os judeus imigrantes que já não entendiam o hebraico nem o aramaico. Esta tradução grega é chamada Septuaginta ou Setenta. Na época em que ela foi feita, a lista (cânon) dos livros sagrados ainda não estava concluída. E assim aconteceu que a lista dos livros desta tradução grega ficou mais comprida do que a lista dos livros da Bíblia hebraica.

É desta diferença entre a Bíblia hebraica da Palestina e a Bíblia grega do Egito que veio a diferença entre a Bíblia dos protestantes e a Bíblia dos católicos. Os protestantes preferiram a lista mais curta e mais antiga da Bíblia hebraica, e os católicos, seguindo o exemplo dos apóstolos, ficaram com a lista mais comprida da tradução grega dos Setenta. Há sete livros a mais na Bíblia dos católicos: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, os dois livros dos Macabeus, além de algumas partes de Daniel e Ester. São chamados “deuterocanônicos”, isto é, são da segunda (dêutero) lista (cânon).

O assunto da Bíblia não é só doutrina sobre Deus. Lá dentro tem de tudo: doutrina, histórias, provérbios, profecias, cânticos, salmos, lamentações, cartas, sermões, meditações, filosofia, romances, cantos de amor, biografias, genealogias, poesias, parábolas, comparações, tratados, contratos, leis para a organização do povo, leis para o bom funcionamento da liturgia; coisas alegres e coisas tristes; fatos verdadeiros e fatos simbólicos; coisas do passado, coisas do presente e coisas do futuro. Enfim, tudo que dá para rir e para chorar. Tem trechos da Bíblia que querem comunicar alegria, esperança, coragem e amor; outros trechos querem denunciar erros, pecados, opressão e injustiças. Tem páginas lá dentro que foram escritas pelo gosto de contar uma bela história para descansar a mente do leitor e provocar nele um sorriso de esperança.

A Bíblia parece um álbum de fotografias. Muitas famílias possuem um álbum assim ou, ao menos, têm uma caixa onde guardam as suas fotografias, todas misturadas, sem ordem. De vez em quando, os filhos despejam tudo na mesa para olhar e comentar as fotografias. Os pais têm que contar a história de cada uma delas. A Bíblia é o álbum de fotografias da família de Deus. Nas suas reuniões e celebrações, o povo olhava as suas “fotografias”, e os pais contavam as histórias. Era o jeito de integrar os filhos no povo de Deus e de transmitir-lhes a consciência da sua missão e da sua responsabilidade.

A Bíblia não fala só de Deus que vai em busca do seu povo, mas também do povo que vai em busca do seu Deus e que procura organizar-se de acordo com a vontade divina. Ela conta as virtudes e os pecados, os acertos e os enganos, os pontos altos e os pontos baixos. Nada esconde, tudo revela. Conta os fatos do jeito que foram lembrados pelo povo. Histórias de gente pecadora que procura ser santa. Histórias de gente opressora que procura converter-se e ser irmão. Histórias de gente oprimida que procura libertar-se.

Longo e demorado foi o mutirão do povo, do qual surgiu a Bíblia. Surgiu como surgem as árvores. Elas nascem de uma semente bem pequena, escondida no chão, e crescem até esparramar os seus galhos que oferecem sombra, alimento e proteção. A Bíblia nasceu de um chamado de Deus, escondido na vida do povo, e cresceu até esparramar os seus 66 galhos pelo mundo inteiro.

O chamado de Deus que deu início ao mutirão do povo é a palavra de Deus, por ele dirigida a todos os homens, também a nós hoje. Este apelo de Deus, escondido no chão da vida, foi descoberto primeiro por Abraão, depois por Moisés e pelo povo oprimido no Egito. Eles deram a sua resposta e fizeram nascer o começo do povo de Deus. Uma vez nascido o povo, trataram de não deixar morrer a semente. Os coordenadores convocavam a comunidade, os pais reuniam os filhos para transmitir a seguinte mensagem: “Nós éramos escravos no Egito. Gritamos ao Deus dos nossos pais, e ele ouviu o nosso clamor. Chamou Moisés e, com a ajuda de Deus e de Moisés, conseguimos a nossa libertação. Deus fez uma aliança conosco: Ele quer ser o nosso Deus, e nós temos que ser o seu povo, observando a sua Lei, vivendo como irmãos!”

Esta mensagem é o núcleo da fé do povo de Deus. Uma história de libertação, da qual nasceu um compromisso mútuo! Semente bem pequenina! Cabia em umas poucas frases! Mas esta história foi contada e cantada, em prosa e verso, de mil maneiras, pelo povo libertado. Foi daí que nasceram os 66 livros da Bíblia, que hoje se esparramam pelo mundo inteiro, oferecendo sombra, alimento e proteção a quem o deseja. Nasceram, para que também nós possamos descobrir hoje o mesmo apelo de Deus em nossa vida e para que iniciemos a mesma caminhada de libertação.

Não é qualquer chão que serve para que uma árvore possa crescer. O canteiro, onde a semente da Bíblia criou raízes e de onde lançou os seus 66 galhos em todos os setores da vida, foi à celebração do povo oprimido, ansioso de se libertar.

A maior parte da Bíblia começou a ser decorada para poder ser usada nas celebrações, e foi escrita ou colecionada por sacerdotes e levitas, os responsáveis pela celebração do povo. Além disso, as peregrinações, os santuários, as festas e as grandes celebrações da aliança, o templo e as casas de oração (sinagogas), os sacrifícios e os ritos, os salmos e os cânticos, a oração e a vivência da fé, tudo isso marca a Bíblia, do começo ao fim!

O coração da Bíblia é o culto do povo! Mas não qualquer culto. É o culto ligado à vida do povo, onde este se reunia para ouvir a palavra de Deus e cantar as suas maravilhas; onde ele tomava consciência da opressão em que vivia ou que ele mesmo impunha aos irmãos; mudava de mentalidade e renovava o seu compromisso de viver como um povo irmão; onde reabastecia a sua fé e alimentava a sua esperança; onde celebrava as suas vitórias e agradecia a Deus pelo dom da vida.

É também no culto que deve estar o coração da interpretação da Bíblia. Sem este ambiente de fé e de oração e sem esta consciência bem viva da opressão que existe no mundo, não é possível agarrar a raiz de onde brotou a Bíblia, nem é possível descobrir a sua mensagem central.

Qual é, em poucas palavras, a mensagem central da Bíblia? A resposta não é fácil, pois depende da vivência. Se você gosta de uma pessoa e alguém lhe pergunta: “Qual é, em poucas palavras, a mensagem desta pessoa para você?”, aí não é fácil responder. O resumo da pessoa amada é o seu nome! Basta você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome, e este lhe traz à memória tudo o que a pessoa amada significa para você. Não é assim? Pois bem, o resumo da Bíblia, a sua mensagem central, é o Nome de Deus!

O Nome de Deus é Javé, cujo sentido ele mesmo revelou e explicou ao povo (Êxodo 3:14). Javé significa Emanuel, isto é, Deus conosco, Deus presente no meio do seu povo para libertá-lo. Deus quer ser Javé para nós, quer ser presença libertadora no meio de nós! E ele deu provas bem concretas de que esta é a sua vontade. A primeira prova foi à libertação do Egito. A última prova está sendo, até hoje, a ressurreição de Jesus, chamado Emanuel (Mateus 1,23). Pela ressurreição de Jesus, Deus venceu as forças da morte e abriu para nós o caminho da vida.

Por tudo isso é difícil resumir em poucas palavras aquilo que o Nome de Deus evocava na mente, no coração e na memória do povo por ele libertado. Só mesmo o povo que vive e celebra a presença libertadora de Deus no seu meio, pode avaliá-lo.

Na nossa Bíblia, o Nome Javé foi traduzido por Senhor. É a palavra que mais ocorre na Bíblia. Milhares de vezes! Pois o próprio Deus falou: “Este é o meu Nome para sempre! Sob este Nome quero ser invocado, de geração em geração!” (Êxodo 3,15). Faz um bem tão grande você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome da pessoa amada. Aquilo ajuda tanto na vida! Dá força e coragem, consola e orienta, corrige e confirma. Um Nome assim não pode ser usado em vão! Seria uma blasfêmia usar o Nome de Deus para justificar a opressão do povo, pois Javé significa Deus libertador!

O Nome Javé é o centro de tudo. Tantas vezes Deus o afirma: “Eu quero ser Javé para vocês, e vocês devem ser o meu povo!” Ser o povo de Javé significa: ser um povo onde não há opressão como no Egito; onde o irmão não explora o irmão; onde reinam a justiça, o direito, a verdade e a lei dos dez mandamentos; onde o amor a Deus é igual ao amor ao próximo. Esta é a mensagem central da Bíblia; é o apelo que o Nome de Deus faz a todos aqueles que querem pertencer ao seu povo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Apologética Hermenêutica

Apologética é a ciência ou disciplina racional que se esforça por apresentar a defesa da fé religiosa, existindo dentro e fora da Igreja cristã. A hermenêutica preserva o texto bíblico, e combate os mestres da falácia. O termo é usado em contraste com polêmica, que é um debate efetuado entre cristãos a fim de determinar a verdadeira posição cristã sobre alguma questão específica. Presumivelmente, a apologética aborda questões defendidas por alguma fé religiosa específica, como o cristianismo, mas que são negadas pelos incrédulos. No uso comum, a palavra é usualmente empregada para indicar a defesa do cristianismo. Positivamente, a apologética tenta elaborar e defender uma visão cristã de Deus, da alma e do mundo, uma visão apoiada por raciocínios reputados, capazes de convencer os não-cristãos da veracidade das doutrinas envolvidas.

O termo vem do grego, apologia, “defesa”, uma resposta ao ataque (Atos 26:1; 1ª Pedro 3:16). O famoso diálogo de Platão, a Apologia, expõe a defesa de Sócrates diante de seus acusadores.

Alguns fazem oposição a qualquer defesa da fé cristã, supondo que o conhecimento da verdade por meio da revelação é perfeito, e não requer qualquer raciocínio humano em sua defesa. Porém, a idéia que a revelação, coada por mentes humanas, é perfeita, capaz assim de produzir um perfeito corpo de verdades conhecidas, não passa de um dogma formulado pelo homem, e não uma doutrina da própria Bíblia. De fato, essa idéia é uma apologia em favor de um dos modos de se obter conhecimento. Em qualquer instância em que algum argumento é apresentado nas Escrituras, não diretamente alicerçado sobre algum texto de prova, dentro da Bíblia, é uma apologia dentro dos livros sacros. Tomemos como exemplo o primeiro capítulo da epístola aos Romanos. Paulo mostra a culpa e a impossibilidade de defesa dos pagãos, diante da mente divina. Ele erige uma apologia em favor de certas idéias básicas, e muitos capítulos das epístolas de Paulo podem ser encarados por esse prisma.

O trecho de I Ped. 3:15 faz esta declaração direta. “... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. Fica entendido que tal resposta conterá raciocínios acerca da fé, e não apenas textos de prova extraídos da Bíblia.

Segundo salientamos acima, no Novo Testamento há muita apologia, e em certo sentido, o próprio volume sagrado é uma apologia em prol da nova religião, em conflito com o antigo judaísmo e com o paganismo. O cristianismo enfrentou um sistema helenizador, no qual a filosofia tinha grande peso. No décimo sétimo capítulo de Atos, Paulo não hesitou em apelar diretamente á apologética, utilizando argumentos filosóficos, procurando convencer os atenienses. O evangelho de Lucas é uma apologia escrita para um oficial romano, a fim de procurar conquistar posição oficial para a nova fé, fazendo assim estacar a perseguição. “... para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lucas 1:4). Essa era a certeza que Lucas procurou transmitir aos seus leitores.

As próprias denominações cristãs são atividades apologéticas. Alguns têm imaginado que a apologia é uma espécie de “ausência de fé”, e não de defesa da fé. Tais pessoas partem do pressuposto que a fé não precisa ser defendida. Mas com isso olvidam-se que os homens interpretam a fé das mais variadas maneiras. Qual é a fé que não precisa ser defendida? Se alguém retrucar que é a fé bíblica, devemo-nos lembrar que as denominações que se utilizam da Bíblia como autoritária, estão longe de concordar com a natureza exata da fé que emerge das páginas da Bíblia. Muito mais se verifica quando saímos para fora das fronteiras da igreja cristã e conversamos com incrédulos bem-informados acerca da “fé”. Eles têm informações suficientes para saber que tal fé, em qualquer forma que ela assuma, tem tal forma precisamente por causa de uma apologia por detrás da mesma e que caracteriza alguma denominação particular. Cada denominação tem sua própria apologia que dá forma ás suas doutrinas e ao seu sistema, a despeito da reivindicação de que aquilo que é exposto é apenas a fé bíblica. Esses fatos não anulam nem a fé e nem a verdade, mas requerem uma cuidadosa apologia a respeito da fé, examinando-a, definindo-a e promovendo-a. A hermenêutica bíblica não faz apologia denominacional.