domingo, 21 de fevereiro de 2010

Origem, Contexto e Estrutura Fundamental da Teologia de Paulo

O estudo de Paulo começa com o reconhecimento de que ele “... era um homem de três mundos: judaico, grego e cristão”.
Background

Paulo e o Helenismo. A familiaridade com o mundo grego é indicada pela sua origem (Tarso, centro do epicurismo) e pelo estilo e vocabulário helênico. Ele foi capaz de “... interpretar o evangelho numa forma que fosse compatível com a cultura helênica.” Mas não há fusão de idéias gregas com a teologia judaico-cristã.

Paulo e o judaísmo. Na base da mentalidade e formação de Paulo está o ambiente judaico, do qual ele próprio dá testemunho (Fp 3.5,6; 2Co 11.22; Gl 1.14; At 22.3). Como Paulo nunca recebeu uma “teologia pronta”, suas idéias devem ser entendidas a partir de seu embasamento original. Em princípio, há pouca dúvida de que os alicerces do pensamento Paulino estavam no AT e no judaísmo de seu tempo. “... Paulo estava preparado, como teólogo judeu, a pensar, sob orientação do Espírito Santo, nas implicações do fato de que o Jesus de Nazaré crucificado era de fato o Messias e o Filho de Deus ressurreto e elevado ao céu”. O problema é que o judaísmo não era uniforme; era composto de várias correntes, especialmente a rabínica (farisaísmo), a apocalíptica, a helenista (diáspora) e a qumrânica. Essas correntes interagiam e não eram puras.
Assim, propôs-se que Paulo fosse basicamente rabínico (W. D. Davies), apocalipsista radical (Schweizter), sincretista que fundiu o cristianismo judaico primitivo com as religiões de mistério ou um helenista com características protognósticas. Provavelmente o embasamento teológico de Paulo é judaico, farisaico (rabínico) e apocalíptico, mas aberto a certa influência das outras correntes judaicas e do helenismo.

A religião de Paulo reflete sua origem judaica, no monoteísmo, culto, ética, fé nas escrituras hebraicas e até na hermenêutica. Como judeu, afirmava a centralidade da Lei, que incluía as tradições (Gl 1.14). Como os outros fariseus, Paulo “... tinha perdido o sentido da revelação de Deus e a sua fala através da voz viva da profecia.”, agarrando-se ao Torah. Participava da esperança escatológica básica do judaísmo, que remonta aos profetas do AT, na estrutura apocalíptica de duas eras (olam hazzeh e olam habbah), esperando a salvação futura de Deus. Era um perseguidor dos cristãos na medida em que reconhecia em Jesus a negação do judaísmo farisaico, que para ele era a fé bíblica. Jesus não poderia ser o Messias, nem seus discípulos o povo messiânico; portanto o movimento representado por Estevão tinha de estar errado (At 7.35ss., 58; Gl 1.13; 1Co 15.9; Fp 3.6), e “... a própria existência da igreja, com sua afirmação de ser o povo do Messias, era uma ameaça ao judaísmo”.

Paulo conheceu o cristianismo helenista de Jerusalém. Como judeu helenista originário de Tarso, Paulo freqüentava a sinagoga dos “libertos”, onde ouviu a pregação irresistível do helenista Estevão (At 6.8-10). As acusações de que este ensinava contra o Templo e contra a Lei (6.13,14) tem seu fundo de verdade claro no sermão que ele proferiu, especialmente no final, onde afirma que Deus não habita em templos humanos e que os próprios judeus jamais cumpriram a Lei (7.48-53). O desafio reformatório de Estevão ao judaísmo abalou o equilíbrio alcançado entre a igreja e o judaísmo com Gamaliel (5.33-42) levando a uma grande perseguição da qual Paulo foi um importante personagem (7.54-8.1-3; 9.1ss.). Esse mesmo desafio reformatório é encontrado posteriormente no ministério de Paulo.

A Experiência Revelatória

A experiência no caminho de Damasco está na origem da religião de Paulo. Diversas tentativas foram feitas para explicar a experiência; ela certamente não foi fruto de reflexão, pois todos os testemunhos indicam que a mudança foi quase instantânea; alguns propuseram que teria sido uma crise psicológica, mas não há indícios de que ele estivesse psicologicamente predisposto a tal crise (cf. Fp 3.4,7; Rm 2.13,23). A história não consegue encontrar uma explicação natural e limita-se ao silêncio; a interpretação existencial vê uma mudança radical no autoentendimento, mas como bem coloca Ladd, essa mudança não é o conteúdo, e sim o resultado da experiência de Damasco. Paulo nunca diz que sua insatisfação com o judaísmo o levou à fé e à experiência com Cristo; pelo contrário, afirma que o encontro com Cristo produziu sua insatisfação com o judaísmo. A melhor opção é sem dúvida ouvir o que o próprio Paulo disse. Para ele o que aconteceu foi “... uma aparição a ele do Jesus ressurreto, glorificado...” (cf. Gl 1.12; 1Co 9.1; 15.8; At 9.1-9; 22.6-16; 26.12-18). Essa é a única alternativa viável para explicar a transformação de Paulo.

A experiência de Paulo está na origem de sua teologia. Através da visão do ressurreto Paulo pôde compreender que: 1) Paulo viu que Jesus é o Messias e o Filho de Deus (At 9.20). Ele percebeu naquele momento a presença da glória de Deus na face de Jesus, com a implicação de que Cristo era o revelador de Deus e a sua imagem (2Co 4.4-6). Isso também, necessariamente, levou a uma reavaliação a respeito da função da Cruz; ela não poderia significar a condenação pelo pecado devendo ser antes compreendida como um ato redentivo de Deus. 2) Paulo viu o Cristo ressuscitado, e isso trazia conseqüências dramáticas. Ele estava consciente de que a presente era é má (Gl 1.4; Rm 8.35; Fp 2.26; Rm 8.21; 1Co 11.32), mas se viu diante de um fato novo: a ressurreição e glorificação de Jesus. Paulo entendeu que na ressurreição de Jesus, a ressurreição escatológica, e, portanto, a era vindoura já tinha começado (1Co 15.21-23,52). Isso exigiu uma modificação na estrutura de duas eras, com a introdução da idéia de que estamos num tempo intermediário, que pertence às duas eras (um entre tempos; cf. 1Co 10.11). Ainda há, no futuro, o dia do Senhor, que é o dia de Cristo, a parousia (1Ts 5.2; 2Ts 2.2; 1Co 1.8; 2Co 1.14; Fp 1.6; 1Ts 2.19; 2Ts 2.1; 1.12), mas o crente já participa de uma nova ordem de existência, de novidade plena, por meio de Cristo ou “em Cristo” (2Co 5.16,17; cf. Is 65.17; Ap 21.5).
O Novo Homem foi gerado! 3) Paulo viu a graça de Deus. Naquele momento, tanto o sistema sacrifical do culto do Templo, como o complicado sistema da religião legalística farisaica entraram em colapso na mente de Paulo, pois com tudo isso ele era inimigo de Deus, e sem nada disso, os cristãos eram o povo de Deus! Com isso Paulo foi levado a reinterpretar o papel da lei e o próprio Templo. Mas o fator fundamental foi a sua própria experiência da graça. Paulo estava no meio de uma experiência de ira e revolta quando foi alcançado pela graça. Em 1Tm 1.12-17 ele conta essa experiência como sendo o “transbordamento da graça” (vs 14). Nesse momento Paulo foi obrigado a reconhecer a suficiência e a invencibilidade da graça, bem como a sua localização histórico-redentiva: a pessoa de Jesus. 4) Paulo viu na Igreja o novo povo de Deus.
A conexão íntima entre Deus e os cristãos ficou evidente no questionamento: “porque me persegues”? É possível que essa pergunta tenha dado origem à sua percepção da igreja como o “corpo de Cristo”. 5) Paulo teve uma experiência “pneumática”. Ele entendia o Dom do Espírito como o conhecimento pessoal do amor de Deus (Rm 5.5; 8.15), conhecimento que ele obteve a partir da conversão. Em 2Co 4.6 ele dá testemunho de que a conversão envolve um conhecimento subjetivo da presença da glória de Deus em Cristo, um “brilhar de Deus” no coração. Mas um pouco antes, em 2Co 3.12-18, a visão da glória de Deus em Cristo foi identificada com a liberdade do Espírito Santo. Assim a visão de Cristo por si mesma gerou tanto sua compreensão sobre a natureza objetiva de Cristo como a sua compreensão da experiência subjetiva do “Cristo-espírito”. Assim, mais tarde, Paulo pôde elaborar a sua conclusão de que o Espírito Santo prometido no AT para o tempo da salvação foi finalmente derramado.

Reunindo estes elementos, temos a base da compreensão de Paulo a respeito do evangelho; Cristo como o revelador da glória-imagem de Deus, e o ponto de inflexão da história da redenção; o início da vitória de Deus e a irrupção do eschaton por meio da cruz-ressurreição; a graça de Deus como o conteúdo essencial da ação de Deus em Jesus; e a criação de um novo povo de Deus que experimenta já os benefícios da salvação.

A Tradição Cristã Primitiva

Paulo recebeu a tradição da igreja primitiva. Embora ele afirme que recebeu o evangelho por revelação (Gl 1), também ensina abertamente que o recebeu por tradição (1Co 15.1ss.). Não há qualquer contradição aqui, pois o evangelho constitui-se de fato e interpretação: 1) Paulo pode ter conhecido a notícia sobre Jesus (a tradição) antes mesmo da conversão, mas a interpretação dessa notícia não lhe veio enquanto não teve a experiência revelatória. Só então Paulo conheceu o evangelho, pois “O Evangelho é, ao mesmo tempo, tradição histórica e querigma pneumático por natureza.” Toda a interpretação teológica que Paulo fez do kerigma tradicional é parte o evangelho, mas não veio senão por revelação; 2) Por outro lado, o evangelho não pode ser outra coisa que não tradição do fato, pois é o relato de uma situação histórica definida – o evento de Cristo. Assim, mesmo para Paulo, o evangelho é recebido por tradição.

Fórmulas doutrinárias e de confissão podem ser encontradas em Paulo. São de caráter cristológico e soteriológico, tendo origem na igreja da palestina (1Co 15.3-5; Rm 1.3ss.; 1Ts 1.9,10; Tt 3.4-7) ou talvez na igreja helenista (1Co12. 3; 10.9?). Há também fórmulas sobre Deus (1Ts 1.9; 1Co 8.6) e talvez alguns hinos (Fp 2.6-11; Cl 1.15-20; 1Tm 3.16; 2Tm 2.11-13).
A tradição parenética da igreja é aproveitada por Paulo em diversos lugares. Isso explica a semelhança entre exortações paulinas e as presentes em outros textos do NT, especialmente 1 Pedro (cf. Rm 12//1Pe 2.11-3.22; Rm 12.17//1Pe 3.9; Rm 13.1-7//1Pe 2.13-17).

Os ditos do Jesus terreno são citados diretamente em algumas ocasiões (1Co 7.10; 9.14; 11.23-26; 1Ts 4.15; 1Tm 5.18) ou aludidos (Rm 12.14-17; 13.7-10; 14.14; 1Co 4.17; 6.1-7). Não são, porém comentados extensivamente.

As Escrituras

Paulo considera as Escrituras do Antigo Testamento inspiradas. Para ele elas são “sagradas” (Rm 1.2; 2Tm 3.15), contém os “oráculos de Deus” (3.1,2), suas palavras são citadas como tendo autoridade (Rm 4.3,17; 10.11; Gl 4.30), elas são identificadas com a fala de Deus (Rm 9.17), elas são inspiradas por Deus (2Tm 3.16). O texto de 2Tm diz que 1) “toda” (pasa) a Escritura é inspirada; isso indica que tudo o que é reconhecido como Escritura, ou, tudo o que é canônico, é inspirado; 2) usa a palavra Theopneustos, “divinamente inspirada” para destacar a origem divina da Escritura. Exatamente por ter um conceito tão alto das Escrituras, Paulo busca relacionar seu evangelho com elas, fundamentando-o e ilustrando-o com citações e alusões.

Paulo interpreta a Escritura como Promessa e Lei. Ele distingue claramente entre Lei e Promessa, ambas presentes na Escritura (Rm 9.4; 4.13,14; Gl 3.17,18, 21). A Lei foi dada com uma função limitada na economia da salvação (Gl3. 24,25), mas a Promessa é anterior à Lei e a excede. A Promessa inclui as promessas do AT (Rm 9.4; 15.8; 2Co 1.20; 7.1), a vida (Gl 3.21; Rm 4.17), a justiça (Gl 3.21), o Espírito (Gl 3.14, Ef 1.13), a filiação (Rm 9.8; Gl 4.22), “... em suma, a salvação escatológica.” A Promessa é uma aliança (Gl 3.17; Ef 2.12).

Paulo interpreta a Escritura Cristocentricamente. Cristo cumpre a Escritura, pois nele se dá o sim de Deus para todas as promessas do AT (2Co 1.20). Ele confirmou as promessas (Rm 15.8) e as consolidou (Rm 4.3). Além disso, a Lei encontra Nele seu “fim” (Rm 10.4). Ela própria testemunha da justiça de Deus (Rm 3.21). Dessa forma, “Todo o núcleo substancial do evangelho está contido em promessa na Escritura.” a Escritura como um todo testemunha de Cristo e o evangelho de Cristo está em continuidade direta com a revelação do AT (Rm 1.17; 4.3-8, 17,18; 3.21; 16.25,25; 1Co 15.1-4).

Paulo interpreta a Escritura Pneumaticamente. Cristo é o centro da Escritura, a chave para o seu entendimento. Mas ela só pode ser entendida dessa forma pela iluminação do Espírito, a partir do evento de Cristo (2Co 3.11-18). Os incrédulos tem seus sentidos “embotados” quando lêem o AT (3.14), e o entendimento “cegado” (4.3,4). O reconhecimento da centralidade de Cristo depende de uma iluminação divina (4.6), por meio da conversão (3.16). Assim, o entendimento da Escritura coincide com a fé em Jesus.

Paulo interpreta a Escritura Escatologicamente. O sentido final da Escritura só seria desvelado no escathon, quando suas promessas se realizariam. A comunidade escatológica é a comunidade que vê diante de si o cumprimento das promessas de Deus, e da própria Escritura (2Co 3.6,14), sendo, portanto o destino final da Escritura (1Co 10.11; Rm 15.4). Ela é assim o “Antigo Testamento” (2Co 3.14).

Paulo interpreta a Escritura Tipologicamente. Em 1Co 10.11 Paulo diz que o que aconteceu no AT é “exemplo” (typikos; synenbanein). “... nos eventos narrados na Escritura, devem ser vistos representados ‘tipicamente’ os eventos da vida do leitor.” É o caso de Abraão, cujo relato de sua justificação se dirige a nós (Rm 4.23-25), bem como o relato de sua eleição (Gl 3.6-18) ou dos Israelitas que caíram na idolatria (1Co 10.1-11), ou de Adão (Rm 5.12-21).

Paulo utiliza as técnicas da exegese rabínica. Temos assim elaborados “midrashim” em Gl 3-4, Rm 9-11 e Ef 2. Em Gálatas, por exemplo, Paulo usa regra midráshica segundo a qual quando dois textos estão em contradição, um terceiro texto pode resolvê-la (3.10-14), ou a técnica de ler um substantivo coletivo como um singular, referindo-se a um indivíduo (3.16-18). . Em Rm 5.15-17 usa a “conclusão a minore ad maius”, em Rm 4.3-8 a conclusão por analogia. Usa também a alegoria própria do judaísmo helenista (1Co 9.9ss.; 10.4; Gl 4.21-31).

A Autoridade Apostólica

A tarefa apostólica e as igrejas. O apostolado foi a função mais importante já desempenhada desde o nascimento da igreja. As qualificações para o apostolado eram o ser testemunha ocular da ressurreição (At 1.22; 1Co 9.1), a vocação do Senhor e os sinais e prodígios (2Co 12.12; Rm 15.19; Gl 3.5). O apóstolo tinha de ser considerado como o próprio Senhor, e era incumbido de pregar o evangelho e fundar igrejas (Rm 1.1; 1Tm 2.7; 2Co 2.17-3.3). A autoridade apostólica não significava infabilidade (cf. Gl 2.11ss.; At 15.7ss.). Também não significava domínio dos crentes. “... a autoridade dos apóstolos parece ter sido exercida mais a nível moral e espiritual, e não haver sido incorporada nas estruturas legais e institucionais.” (2Co 1.24; 4.2,5; 11.20; 1Co 7.23). O verdadeiro apóstolo serve de maneira desinteressada (2Co 11.12).

Paulo Magister: a autoridade divina do apostolado. Como apóstolo, Paulo tinha consciência de ser o agente da revelação, ou do “mistério” agora manifesto (Rm 16.25,26), considerando-se o portador da revelação (Rm 15.19; 1Co 4.1; Cl 4.3; Ef 3.3,5). Por isso a atitude de Paulo para com sua própria mensagem era de que esta tinha autoridade divina; “... suas cartas refletem um senso de autoridade, à luz da qual se tem que ler todo o pensamento de Paulo.” (cf. 1Co 7.10,12, 40; 14.37; 2Co 10.8; 11.6; Gl 1.6ss.; 2Ts 3.14; 2Co 2.9; 8.8; Fp 3.15). Paulo reivindica autoridade a partir de sua vocação apostólica (At 9.15,16; 22.15; 26.17,18; Gl 1.15ss; 1Co 9.16ss.; 2Co 10.8; 13.10; Gl 2.7-9), e divide a autoridade com os outros apóstolos (1Co 12.18; Ef 4.11).

O conteúdo da pregação apostólica. O conteúdo da pregação apostólica é o evangelho, o mysterion tou euangelion que foi revelado aos apóstolos (Rm 16.25,26; Gl 1.11,12; Ef 6.19), e esse conteúdo inclui tanto a proclamação do fato histórico da morte e ressurreição de Jesus como do seu significado redentor. Esse fato fica bem claro, por exemplo, em 1 Coríntios. Ao combater uma distorção do evangelho, feita por mestres de tendências helenizantes em Corinto, Paulo os acusou de não estarem realmente entendendo o significado da cruz. Nessa discussão, que transparece ao longo da carta, ele deixou claro que o mistério revelado de Deus envolve não só o próprio fato histórico da morte e ressurreição de Jesus, como também o sentido da cruz, como Deus usou “... a profundidade da humilhação e da degradação como meio de salvação.” (1Co 1.17,23; 2.7). Devemos entender, portanto que tanto a totalidade do evento histórico de Jesus, como a interpretação apostólica, que faz parte deste evento, são a revelação.

A autoridade da tradição apostólica. A revelação não é somente o evento histórico passado; tampouco é a confrontação com Deus que ocorre na palavra pregada, como quer Bultmann . Para Paulo, a revelação acontece, não só no evento histórico, mas num sentido, quando o evangelho é proclamado (Rm 1.16; 16.25,26; Ef 6.19; 1Co 1.21). Assim, há uma unidade dinâmica entre o evento e a proclamação do evento, e a proclamação é a atualização do evento.
O conceito de tradição em Paulo corrobora com essa idéia. Ele usa um vocabulário técnico das tradições judaicas orais (paradosis;, paradidomi, paralambano) para se referir ao evangelho e aos ensinos transmitidos aos crentes (1Co 11.2,23; 15.1-5; Gl 1.9; 1Ts 2.13; 2Ts 2.15; 3.6). Mas seu conceito de tradição distingui-se do conceito judaico porque a recepção da verdade evangélica significava receber o próprio Cristo como Senhor (1Ts 2.13; 1Co 15.1; Cl 2.16; Rm 10.8,9), possiblilitada pelo Espírito (1Co 12.3). Assim, a tradição tem um caráter histórico mas também um caráter kerigmático-pneumático; e a palavra pregada é ao mesmo tempo palavra de homem e palavra de Deus (1Ts 2.13; Ef 1.13; Cl 1.5,25; 1Co 1.18,21; 2Co 5.19; Fp 1.14; 2.16; 2Tm 2.9,19), e o próprio Deus se encontra com os homens na palavra da cruz.
A tradição é tanto fixa (Gl 1.8,9), não podendo ser modificada, como dinâmica, podendo ser aumentada, por meio do ensino dos apóstolos, que revelam as implicações do evento de Cristo. A tradição apostólica faz, portanto, parte da revelação. Em Gálatas, Paulo não nega que a revelação venha por meio da tradição; apenas afirma que, como apóstolo, ele recebeu a revelação do glorificado independentemente da tradição. Mas ainda assim ele reconhecia a tradição, como veremos (cf 1Co 11 e 15).

A natureza e autoridade divina das epístolas. Com toda certeza “somos afortunados em ter uma substancial coleção de fontes primárias do próprio punho de Paulo” As epístolas são produtos do exercício da autoridade apostólica de Paulo, na disciplina, pregação e instrução doutrinária. Elas participam, portanto, da mesma autoridade divina de Paulo como extensões permanentes de sua função apostólica, constituindo o nosso acesso privilegiado ao evangelho de Paulo. Por outro lado, a natureza aliterária e prática das epístolas de Paulo cria dificuldades especiais para seu entendimento. Isso significa que Paulo não era um teólogo sistemático. Johann Christiaan Beker propôs como chave para a teologia de Paulo lermos as cartas como “... interação entre o centro coerente e interpretação contingente”. Ou seja, a mensagem única de Paulo é o ponto de partida para suas reflexões e aplicações práticas. Assim, “... podemos reconhecer uma teologia paulina como uma interpretação do significado da pessoa e da obra de Cristo em sua importância prática para a vida cristã, tanto individual como coletiva.”
Outra dificuldade na leitura de Paulo é que não temos o seu pensamento completo. O que temos são discussões de sua teologia aplicada às necessidades práticas das igrejas. Assim, o que temos, devemos aos acidentes da história . Por essa razão é um grande erro trabalhar com a suposição de que o que não está nas epístolas necessariamente era desconhecido de Paulo (especialmente a questão da vida terrena de Jesus), pois como bem colocou o autor, “... o silêncio não significa ignorância.” Quanto à falta de enquadramento histórico para certos ensinos de Paulo, devemos evitar juízos absolutos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sinopse da História da Bíblia

O nome "Bíblia" vem do grego "Biblos", nome da casca de um papiro do século XI a.C.. Os primeiros a usar a palavra "Bíblia" para designar as Escrituras Sagradas foram os discípulos do Cristo, no século II d.C.

Ao comparar as diferentes cópias do texto da Bíblia entre si e com os originais disponíveis, menos de 1% do texto apresentou dúvidas ou variações, portanto, 99% do texto da Bíblia é puro. Vale lembrar que o mesmo método (crítica textual) é usado para avaliar outros documentos históricos, como a Ilíada de Homero, por exemplo. Foi a primeira obra impressa por Gutenberg, em seu recém inventado prelo manual, que dispensava as cópias manuscritas.

A divisão em capítulos foi introduzida pelo professor universitário parisiense Stephen Langton, em 1227, que viria a ser eleito bispo de Cantuária pouco tempo depois. A divisão em versículos foi introduzida em 1551, pelo impressor parisiense Robert Stephanus. Ambas as divisões tinham por objetivo facilitar a consulta e as citações bíblicas, e foi aceita por todos, incluindo os judeus.

Foi escrita e reproduzida em diversos materiais, de acordo com a época e cultura das regiões, utilizando tábuas de barro, peles, papiro e até mesmo cacos de cerâmica. Com exceção de alguns textos do livro de Ester e de Daniel, os textos originais do Antigo Testamento foram escritos em hebraico, uma língua da família das línguas semíticas, caracterizada pela predominância de consoantes. A palavra “Hebraica" vem de "Hebrom", região de Canaã que foi habitada pelo patriarca Abraão em sua peregrinação, vindo da terra de Ur.

Os 39 livros que compõem o Antigo Testamento (sem a inclusão dos apócrifos) estavam compilados desde cerca de 400 a.C., sendo aceitos pelo cânon Judaico, e também pelos protestantes, católicos ortodoxos, igreja católica russa, e parte da igreja católica tradicional. A primeira Bíblia em português foi impressa em 1748. A tradução foi feita a partir da Vulgata Latina e iniciou-se com D. Diniz (1279-1325).

Não foi uma única pessoa que escreveu a Bíblia. Muita gente deu a sua contribuição: homens e mulheres, jovens e velhos, pais e mães de família, agricultores e operários de várias profissões; gente instruída que sabia ler e escrever e gente simples que só sabia contar histórias; gente viajada e gente que nunca saiu de casa; sacerdotes e profetas, reis e pastores, pobres e ricos, gente de todas as classes, mas todos convertidos e unidos na mesma preocupação de construir um povo irmão, onde reinassem a fé e a justiça, o amor e a fraternidade, a verdade e a fidelidade, e onde não houvesse opressor nem oprimido.

A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou muito tempo, mais de mil anos. Começou em torno do ano 1250 antes de Cristo, e o ponto final só foi colocado cem anos depois do nascimento de Jesus. Aliás, é muito difícil saber quando foi que começaram a escrever a Bíblia, pois, antes de ser escrita, a Bíblia foi narrada e contada nas rodas de conversa e nas celebrações do povo. E antes de ser narrada e contada, ela foi vivida por muitas gerações num esforço teimoso e fiel de colocar Deus na vida e de organizar a vida de acordo com a justiça.

No começo, o povo não fazia muita distinção entre contar e escrever. O importante era expressar e transmitir aos outros a nova consciência comunitária, nascida neles a partir do contato com Deus. Faziam isto contando aos filhos os fatos mais importantes do seu passado. Como nós hoje decoramos a letra dos cânticos, assim eles decoravam e transmitiam as histórias, as leis, às profecias, os salmos, os provérbios e tantas outras coisas que, depois, foram escritas na Bíblia. A Bíblia saiu da memória do povo. Nasceu da preocupação de não esquecer o passado.

A Bíblia não foi escrita no mesmo lugar, mas em muitos lugares e países diferentes. A maior parte do Antigo Testamento e do Novo Testamento foi escrita na Palestina, a terra onde o povo vivia, por onde Jesus andou e onde nasceu a Igreja. Algumas partes do Antigo Testamento foram escritas na Babilônia, onde o povo viveu no cativeiro no século VI antes de Cristo. Outras partes foram escritas no Egito, para onde muita gente emigrou depois do cativeiro. O Novo Testamento tem partes que foram escritas na Síria, na Ásia Menor, na Grécia e na Itália, onde havia muitas comunidades, fundadas ou visitadas pelo apóstolo Paulo.

Ora, os costumes, a cultura, a religião, a situação econômica, social e política de todos estes povos deixaram marcas na Bíblia e tiveram a sua influência na maneira de a Bíblia nos apresentar a mensagem de Deus aos homens.

A Bíblia não foi escrita numa única língua, mas em três línguas diferentes. A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico. Era a língua que se falava na Palestina antes do cativeiro. Depois do cativeiro, o povo de lá começou a falar o aramaico. Mas a Bíblia continuou a ser escrita, copiada e lida em hebraico. Para que o povo pudesse ter acesso à Bíblia, foram criadas escolinhas em toda parte. Jesus deve ter freqüentado a escolinha de Nazaré para aprender o hebraico. Só uma parte bem pequena do Antigo Testamento foi escrita em aramaico. Um único livro do Antigo Testamento, o livro da Sabedoria, e todo o Novo Testamento foram escritos em grego. O grego era a nova língua do comércio que invadiu o mundo daquele tempo, depois das conquistas de Alexandre Magno, no século IV antes de Cristo.

Assim, no tempo de Jesus, o povo da Palestina falava o aramaico em casa, usava o hebraico na leitura da Bíblia, e o grego no comércio e na política. Quando os apóstolos saíram da Palestina para pregar o Evangelho aos outros povos, eles adotaram uma tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito no século III antes de Cristo para os judeus imigrantes que já não entendiam o hebraico nem o aramaico. Esta tradução grega é chamada Septuaginta ou Setenta. Na época em que ela foi feita, a lista (cânon) dos livros sagrados ainda não estava concluída. E assim aconteceu que a lista dos livros desta tradução grega ficou mais comprida do que a lista dos livros da Bíblia hebraica.

É desta diferença entre a Bíblia hebraica da Palestina e a Bíblia grega do Egito que veio a diferença entre a Bíblia dos protestantes e a Bíblia dos católicos. Os protestantes preferiram a lista mais curta e mais antiga da Bíblia hebraica, e os católicos, seguindo o exemplo dos apóstolos, ficaram com a lista mais comprida da tradução grega dos Setenta. Há sete livros a mais na Bíblia dos católicos: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, os dois livros dos Macabeus, além de algumas partes de Daniel e Ester. São chamados “deuterocanônicos”, isto é, são da segunda (dêutero) lista (cânon).

O assunto da Bíblia não é só doutrina sobre Deus. Lá dentro tem de tudo: doutrina, histórias, provérbios, profecias, cânticos, salmos, lamentações, cartas, sermões, meditações, filosofia, romances, cantos de amor, biografias, genealogias, poesias, parábolas, comparações, tratados, contratos, leis para a organização do povo, leis para o bom funcionamento da liturgia; coisas alegres e coisas tristes; fatos verdadeiros e fatos simbólicos; coisas do passado, coisas do presente e coisas do futuro. Enfim, tudo que dá para rir e para chorar. Tem trechos da Bíblia que querem comunicar alegria, esperança, coragem e amor; outros trechos querem denunciar erros, pecados, opressão e injustiças. Tem páginas lá dentro que foram escritas pelo gosto de contar uma bela história para descansar a mente do leitor e provocar nele um sorriso de esperança.

A Bíblia parece um álbum de fotografias. Muitas famílias possuem um álbum assim ou, ao menos, têm uma caixa onde guardam as suas fotografias, todas misturadas, sem ordem. De vez em quando, os filhos despejam tudo na mesa para olhar e comentar as fotografias. Os pais têm que contar a história de cada uma delas. A Bíblia é o álbum de fotografias da família de Deus. Nas suas reuniões e celebrações, o povo olhava as suas “fotografias”, e os pais contavam as histórias. Era o jeito de integrar os filhos no povo de Deus e de transmitir-lhes a consciência da sua missão e da sua responsabilidade.

A Bíblia não fala só de Deus que vai em busca do seu povo, mas também do povo que vai em busca do seu Deus e que procura organizar-se de acordo com a vontade divina. Ela conta as virtudes e os pecados, os acertos e os enganos, os pontos altos e os pontos baixos. Nada esconde, tudo revela. Conta os fatos do jeito que foram lembrados pelo povo. Histórias de gente pecadora que procura ser santa. Histórias de gente opressora que procura converter-se e ser irmão. Histórias de gente oprimida que procura libertar-se.

Longo e demorado foi o mutirão do povo, do qual surgiu a Bíblia. Surgiu como surgem as árvores. Elas nascem de uma semente bem pequena, escondida no chão, e crescem até esparramar os seus galhos que oferecem sombra, alimento e proteção. A Bíblia nasceu de um chamado de Deus, escondido na vida do povo, e cresceu até esparramar os seus 66 galhos pelo mundo inteiro.

O chamado de Deus que deu início ao mutirão do povo é a palavra de Deus, por ele dirigida a todos os homens, também a nós hoje. Este apelo de Deus, escondido no chão da vida, foi descoberto primeiro por Abraão, depois por Moisés e pelo povo oprimido no Egito. Eles deram a sua resposta e fizeram nascer o começo do povo de Deus. Uma vez nascido o povo, trataram de não deixar morrer a semente. Os coordenadores convocavam a comunidade, os pais reuniam os filhos para transmitir a seguinte mensagem: “Nós éramos escravos no Egito. Gritamos ao Deus dos nossos pais, e ele ouviu o nosso clamor. Chamou Moisés e, com a ajuda de Deus e de Moisés, conseguimos a nossa libertação. Deus fez uma aliança conosco: Ele quer ser o nosso Deus, e nós temos que ser o seu povo, observando a sua Lei, vivendo como irmãos!”

Esta mensagem é o núcleo da fé do povo de Deus. Uma história de libertação, da qual nasceu um compromisso mútuo! Semente bem pequenina! Cabia em umas poucas frases! Mas esta história foi contada e cantada, em prosa e verso, de mil maneiras, pelo povo libertado. Foi daí que nasceram os 66 livros da Bíblia, que hoje se esparramam pelo mundo inteiro, oferecendo sombra, alimento e proteção a quem o deseja. Nasceram, para que também nós possamos descobrir hoje o mesmo apelo de Deus em nossa vida e para que iniciemos a mesma caminhada de libertação.

Não é qualquer chão que serve para que uma árvore possa crescer. O canteiro, onde a semente da Bíblia criou raízes e de onde lançou os seus 66 galhos em todos os setores da vida, foi à celebração do povo oprimido, ansioso de se libertar.

A maior parte da Bíblia começou a ser decorada para poder ser usada nas celebrações, e foi escrita ou colecionada por sacerdotes e levitas, os responsáveis pela celebração do povo. Além disso, as peregrinações, os santuários, as festas e as grandes celebrações da aliança, o templo e as casas de oração (sinagogas), os sacrifícios e os ritos, os salmos e os cânticos, a oração e a vivência da fé, tudo isso marca a Bíblia, do começo ao fim!

O coração da Bíblia é o culto do povo! Mas não qualquer culto. É o culto ligado à vida do povo, onde este se reunia para ouvir a palavra de Deus e cantar as suas maravilhas; onde ele tomava consciência da opressão em que vivia ou que ele mesmo impunha aos irmãos; mudava de mentalidade e renovava o seu compromisso de viver como um povo irmão; onde reabastecia a sua fé e alimentava a sua esperança; onde celebrava as suas vitórias e agradecia a Deus pelo dom da vida.

É também no culto que deve estar o coração da interpretação da Bíblia. Sem este ambiente de fé e de oração e sem esta consciência bem viva da opressão que existe no mundo, não é possível agarrar a raiz de onde brotou a Bíblia, nem é possível descobrir a sua mensagem central.

Qual é, em poucas palavras, a mensagem central da Bíblia? A resposta não é fácil, pois depende da vivência. Se você gosta de uma pessoa e alguém lhe pergunta: “Qual é, em poucas palavras, a mensagem desta pessoa para você?”, aí não é fácil responder. O resumo da pessoa amada é o seu nome! Basta você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome, e este lhe traz à memória tudo o que a pessoa amada significa para você. Não é assim? Pois bem, o resumo da Bíblia, a sua mensagem central, é o Nome de Deus!

O Nome de Deus é Javé, cujo sentido ele mesmo revelou e explicou ao povo (Êxodo 3:14). Javé significa Emanuel, isto é, Deus conosco, Deus presente no meio do seu povo para libertá-lo. Deus quer ser Javé para nós, quer ser presença libertadora no meio de nós! E ele deu provas bem concretas de que esta é a sua vontade. A primeira prova foi à libertação do Egito. A última prova está sendo, até hoje, a ressurreição de Jesus, chamado Emanuel (Mateus 1,23). Pela ressurreição de Jesus, Deus venceu as forças da morte e abriu para nós o caminho da vida.

Por tudo isso é difícil resumir em poucas palavras aquilo que o Nome de Deus evocava na mente, no coração e na memória do povo por ele libertado. Só mesmo o povo que vive e celebra a presença libertadora de Deus no seu meio, pode avaliá-lo.

Na nossa Bíblia, o Nome Javé foi traduzido por Senhor. É a palavra que mais ocorre na Bíblia. Milhares de vezes! Pois o próprio Deus falou: “Este é o meu Nome para sempre! Sob este Nome quero ser invocado, de geração em geração!” (Êxodo 3,15). Faz um bem tão grande você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome da pessoa amada. Aquilo ajuda tanto na vida! Dá força e coragem, consola e orienta, corrige e confirma. Um Nome assim não pode ser usado em vão! Seria uma blasfêmia usar o Nome de Deus para justificar a opressão do povo, pois Javé significa Deus libertador!

O Nome Javé é o centro de tudo. Tantas vezes Deus o afirma: “Eu quero ser Javé para vocês, e vocês devem ser o meu povo!” Ser o povo de Javé significa: ser um povo onde não há opressão como no Egito; onde o irmão não explora o irmão; onde reinam a justiça, o direito, a verdade e a lei dos dez mandamentos; onde o amor a Deus é igual ao amor ao próximo. Esta é a mensagem central da Bíblia; é o apelo que o Nome de Deus faz a todos aqueles que querem pertencer ao seu povo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Apologética Hermenêutica

Apologética é a ciência ou disciplina racional que se esforça por apresentar a defesa da fé religiosa, existindo dentro e fora da Igreja cristã. A hermenêutica preserva o texto bíblico, e combate os mestres da falácia. O termo é usado em contraste com polêmica, que é um debate efetuado entre cristãos a fim de determinar a verdadeira posição cristã sobre alguma questão específica. Presumivelmente, a apologética aborda questões defendidas por alguma fé religiosa específica, como o cristianismo, mas que são negadas pelos incrédulos. No uso comum, a palavra é usualmente empregada para indicar a defesa do cristianismo. Positivamente, a apologética tenta elaborar e defender uma visão cristã de Deus, da alma e do mundo, uma visão apoiada por raciocínios reputados, capazes de convencer os não-cristãos da veracidade das doutrinas envolvidas.

O termo vem do grego, apologia, “defesa”, uma resposta ao ataque (Atos 26:1; 1ª Pedro 3:16). O famoso diálogo de Platão, a Apologia, expõe a defesa de Sócrates diante de seus acusadores.

Alguns fazem oposição a qualquer defesa da fé cristã, supondo que o conhecimento da verdade por meio da revelação é perfeito, e não requer qualquer raciocínio humano em sua defesa. Porém, a idéia que a revelação, coada por mentes humanas, é perfeita, capaz assim de produzir um perfeito corpo de verdades conhecidas, não passa de um dogma formulado pelo homem, e não uma doutrina da própria Bíblia. De fato, essa idéia é uma apologia em favor de um dos modos de se obter conhecimento. Em qualquer instância em que algum argumento é apresentado nas Escrituras, não diretamente alicerçado sobre algum texto de prova, dentro da Bíblia, é uma apologia dentro dos livros sacros. Tomemos como exemplo o primeiro capítulo da epístola aos Romanos. Paulo mostra a culpa e a impossibilidade de defesa dos pagãos, diante da mente divina. Ele erige uma apologia em favor de certas idéias básicas, e muitos capítulos das epístolas de Paulo podem ser encarados por esse prisma.

O trecho de I Ped. 3:15 faz esta declaração direta. “... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. Fica entendido que tal resposta conterá raciocínios acerca da fé, e não apenas textos de prova extraídos da Bíblia.

Segundo salientamos acima, no Novo Testamento há muita apologia, e em certo sentido, o próprio volume sagrado é uma apologia em prol da nova religião, em conflito com o antigo judaísmo e com o paganismo. O cristianismo enfrentou um sistema helenizador, no qual a filosofia tinha grande peso. No décimo sétimo capítulo de Atos, Paulo não hesitou em apelar diretamente á apologética, utilizando argumentos filosóficos, procurando convencer os atenienses. O evangelho de Lucas é uma apologia escrita para um oficial romano, a fim de procurar conquistar posição oficial para a nova fé, fazendo assim estacar a perseguição. “... para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lucas 1:4). Essa era a certeza que Lucas procurou transmitir aos seus leitores.

As próprias denominações cristãs são atividades apologéticas. Alguns têm imaginado que a apologia é uma espécie de “ausência de fé”, e não de defesa da fé. Tais pessoas partem do pressuposto que a fé não precisa ser defendida. Mas com isso olvidam-se que os homens interpretam a fé das mais variadas maneiras. Qual é a fé que não precisa ser defendida? Se alguém retrucar que é a fé bíblica, devemo-nos lembrar que as denominações que se utilizam da Bíblia como autoritária, estão longe de concordar com a natureza exata da fé que emerge das páginas da Bíblia. Muito mais se verifica quando saímos para fora das fronteiras da igreja cristã e conversamos com incrédulos bem-informados acerca da “fé”. Eles têm informações suficientes para saber que tal fé, em qualquer forma que ela assuma, tem tal forma precisamente por causa de uma apologia por detrás da mesma e que caracteriza alguma denominação particular. Cada denominação tem sua própria apologia que dá forma ás suas doutrinas e ao seu sistema, a despeito da reivindicação de que aquilo que é exposto é apenas a fé bíblica. Esses fatos não anulam nem a fé e nem a verdade, mas requerem uma cuidadosa apologia a respeito da fé, examinando-a, definindo-a e promovendo-a. A hermenêutica bíblica não faz apologia denominacional.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Vida de Jesus - Parte 2

O Nascimento de João Batista

Após 400 anos de silêncio profético em Israel, nasce João batista que vem preparar o caminho do Messias.

Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote chamado Zacarias e sua mulher, Isabel (Elizabeth, no hebraico). Ambos eram justos diante de Deus, vivendo corretamente dentro dos preceitos e mandamentos do Senhor. Eles não tinham filhos porque Isabel era estéril e já eram idosos. Aconteceu que, quando chegou seu turno de servir no Templo, coube a Zacarias por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso. Mas um anjo apareceu á direita do altar de incenso, Zacarias ficou temeroso e o anjo lhe disse: “Não temas. Isabel, tua mulher dará á luz um filho e lhe porás o nome de João. Ele será grande diante do Senhor e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus” (Lucas 1).

Como Zacarias não acreditou no anjo, este lhe disse que ele ficaria mudo até o nascimento do menino. Quando Zacarias saiu não conseguia falar nada, então os outros sacerdotes entenderam que ele havia tido uma visão, pois tentava se comunicar com acenos. Voltando para casa, passados alguns dias, Isabel concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo: “Assim me fez o Senhor, dando-me um filho para anular minha vergonha diante dos homens”. Disse isso porque a mulher que não tinha filhos era discriminada naquela sociedade.

No sexto mês sua prima, Maria, foi visitá-la e disse que também recebera a visita do anjo. Quando Maria chegou a criança estremeceu no ventre de Isabel e então ela soube que sua prima carregava dentro de si o Salvador. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em voz alta: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. Maria agradeceu a Deus, dizendo: “Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador”. Maria estava muito feliz, pois Deus, assim como a Isabel, a havia agraciado.

Ela ficou três meses com Isabel e voltou para casa, em Nazaré. Cumprido o tempo de dar á luz, Isabel teve um filho. No oitavo dia, como era costume, foram circuncidar o menino e queriam colocar o nome Zacarias, como o pai, mas Isabel disse que o nome seria João. Perguntaram ao pai do menino que nome gostaria que lhe desse e ele escreveu numa tabuinha: João. Imediatamente sua boca abriu, sua língua ficou desimpedida e ele começou a louvar a Deus!

Toda a vizinhança ficou sabendo e temiam ao Senhor. O menino crescia forte em espírito e quando adulto viveu no deserto até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel. Sua roupa era de pêlo de camelo e usava cinto de couro, comia gafanhotos e mel silvestre (Mc. 1:6). O profeta Isaias já havia falado sobre João no Antigo Testamento, referindo-se a ele como “Voz do que clama no deserto”. (Isaias 40:3 – Lc. 3:4).

João preparava o caminho do Senhor, chamando as pessoas ao arrependimento e batizando a muitos, dizendo: “Eu batizo com água, mas virá aquele que batizará com o Espírito Santo” (Lc. 3:16).